a menina(o) do trabalho.

Escrever um texto sobre isso, a essa altura do campeonato, sendo eu a autora de cada uma dessas linhas, é a maior ironia do mundo: daquelas que se fazem necessárias.

Nunca achei que fosse admitir, assim, pra burguês ver, mas sabe, nós mulheres temos uma certa insegurança em relação às meninas(os) do seu trabalho. E não posso nem me defender sobre esse tópico, caro amigo, não posso nem dizer que não- tem-na-da-a-ver, que é apenas uma insegurança feminina desmedida. E sabe por que?  Porque eu já fui a menina do trabalho. E estou até hoje com o carinha do trabalho também.

E por já ter vivido os dois lados da coisa, já ter estado com o tal cara do trabalho (comprometido na época) e ter me tornado sua namorada atual (não estou me orgulhando, estou apenas colocando os fatos), fica dificílimo dizer que as mulheres precisam ser fortes, seguras e independentes. Fica complicado dizer que não podemos ter ciúme ou que temos essa necessidade de “encontrar pelo em ovo” porque, né? Às vezes estamos completamente erradas, mas, às vezes… Não.

Passamos a maior parte das nossas vidas no ambiente corporativo. É com as pessoas que trabalhamos todos os dias, de sol a sol, que dividimos (até mesmo que involuntariamente), nossos dramas mais profundos. Falamos mais sobre a nossa vida pessoal e sexual no almoço de meia hora e na mesa do bar de sexta que na sala de terapia. Provavelmente pelo fato de que rir de si e do outro seja um dos remédios mais maravilhosos para qualquer vida média.

Seja do dinheiro que acabou (ou que nunca veio), do gato doente, do cliente maluco ou da cólera que abateu a família, abrimos nossos corações. E, eventualmente, podemos encontrar alguém que queira ocupar aquele vazio latente que todo mundo tem em algum lugar – e que, no meu caso, permanece no estômago. HE HE.

Pode parecer completamente sem noção esse lance de se apaixonar pelo cara do trabalho, é até errado em alguns cenários mais quadradinhos, pode gerar demissões, mal estar, pode acabar com muitas carreiras e tirar o foco daquilo que, afinal, somos pagos para executar das 9h00 às 18h00, mas não sejamos hipócritas.

Se a vida é a arte do encontro, estamos também sujeitos a nos encontrar  pelas firmas e mais firmas desse Brasil.

E, olha, pode ser maravilhoso. Vou te dizer.

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quando só acreditar não adianta.

A conclusão que cheguei nessa vida é que existem dois tipos de pessoas: aquelas que acreditam que as coisas podem dar certo e aquelas que acham que esse lance de acreditar é a maior bulshitagem de comercial de margarina já visto por aí. Desse primeiro grupo, vejo ainda mais uma subdivisão: as que acreditam e fazem alguma coisa pra que a vida mude e aquelas que permanecem na inércia, esperando acontecer. Dessa segunda categoria, percebi que estar na inércia às vezes é involuntário. Nem sempre a gente percebe que quando aponta o dedo na cara do outro o problema, está, na verdade, dentro da gente. Que adoramos ressucitar fantasmas e chutar os cachorros mortos pelo nosso caminho. Que mantemos vivas em nossas vidas algumas coisas que deveríamos deixar pra lá – mesmo que corramos um risco enorme de, talvez, nos magoar novamente.

A arte do desapego e da autoconfiança é ainda mais complicada que a arte de acreditar: você  às vezes quer mudar de caminho, mas não percebe que esse movimento deve partir de você. Fica sondando o outro, questionando o outro, esperando do outro, quando, vamos lá, somos nós os senhores do nosso destino. Ninguém pode te fazer feliz se você continuar ancorado no mar. Se deixe navegar.

Acredito em Deus. Acredito que passamos por determinadas coisas para que cresçamos, sejamos melhores, para que aprendamos com a dor mesmo que não seja fácil. Mas acredito também que PRECISAMOS fazer tudo quanto for possível enquanto é possível. Precisamos fazer por merecer aquele emprego, estudar para aquela prova. Precisamos lutar por aqueles  que amamos no matter what. Precisamos nos esforçar pra superar nossas próprias barreiras o tempo todo; não deixar o ciúme dominar, o pessimismo, a discórdia, a desconfiança. Quanto mais ficamos presos a coisas e pessoas que nos fazem mal, mais mal atraímos pra vida da gente, como um verdadeiro vórtex de coisas ruins.

Sua vida tá ruim, cara? A de todo mundo tá. Seja pelo o amor que não deu, pelo dinheiro que não deu, por aquele sonho que não deu também… Mas ainda vai dar.

E mais importante que pensar no que se foi, no que aconteceu e feriu, no que deu errado e magoou é acreditar naquela parte de ar que ficou na outra metade do copo (pra mim, sempre cheio).

E ela quem vai te fazer respirar.

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um texto animal.

Já nem sei mais se ainda posso escrever esse post do Rota. Outubro foi um mês de muitas conturbações e, novembro, ao que tudo indica, vai caminhar no mesmo passo: às cavalgadas. Entre o certo e o duvidoso, vim, me concentrei e fiz. E espero que ainda seja útil para quem tem vindo tirar as teias de aranha que venho deixando formar por aqui.

Não consigo confiar nas pessoas que não bebem uma gota sequer de álcool, bem como não consigo confiar naquelas que não gostam  de uma boa comida e, claro, dos animais. É inconcebível, na minha pequena mente humana de amante dos bichos, que exista alguém nesse mundo que não se sinta compelido a acariciar um cachorro simpático na rua. Ou não fique maluco ao ver um filhotinho, de qualquer espécie que seja, no zoológico ou na casa alheia, das lagartixas às araras azuis. Eu fico doida. É tão curioso, pra mim, não gostar de cachorros e gatos quanto não gostar de chocolate. Eu diria que é quase surreal.

Os bichos sempre me geraram um encantamento instantâneo, um desejo incontrolável de servir – ao invés de ser servida – num sentimento completamente anti-natural para nós, humanos, mas altamente recompensador. Engraçado pensar dessa forma. Mais que comida, bebida ou abrigo, os animais só exigem, de fato, carinho. Se assim for, nos retribuem com uma das mais sinceras formas de amor. Não importa quanto dinheiro você tenha no bolso, nem quantas maquiagens estão na sua gaveta. Se você é gorda, magra, japonesa ou russa. Não importa, veja só, se eles estão comendo caviar ou ração das mais simples, desde que você esteja lá. Doando seu tempo e dando o mínimo de conforto necessário para que seu bichinho viva com saúde e conforto.

O comércio de animais, lembro-me bem, era uma LOUCURA nos anos 90. Eram filmes com cachorros falantes, policiais, espiões, desenhos e mais uma série de produtos que faziam toda – e qualquer criança – desejar ardentemente um Dálmata ou uma Lessie, que seja. O tempo foi passando, os interesses infantis, apesar de ainda muito intensos em relação aos bichos de estimação, deram lugar às telinhas, telonas e todo o tipo de dispositivo não humano. Aqueles animais, que antes eram vendidos aos montes e exibidos nas caixas de vidro dos shoppings de todo o mundo, reduziram consideravelmente. Uma pena que ainda não completamente. O que é feito em determinados criadouros com esses bichos por mera função comercial é uma atrocidade, mas vamos deixar, por enquanto, esse aprofundamento pra lá.

Esse texto, cheio de devaneios sobre animais, vida moderna e tecnologia, é, no raso, um incentivo ao amor. À adoção de animais e ao treino diário em sermos mais tolerante com os seres vivos, todos eles. Ter um cachorro, um gato, uma tartaruga, um passarinho um casal de peixinhos dourados ou uma samambaia renda portuguesa é dar uma parte do seu dia – para alguns poucos infelizes, obrigatoriamente – a um ser que depende de você. Um ser que é tão grato por esse gesto que fornece aquilo que falta pra todo mundo e que, às vezes, nem nos damos conta: tempo para contemplar. Acariciar.Cuidar. Respirar.

Tenho, atualmente, 3 vira-latas, mas teria 20. O Homero, o João e a Magali (em ordem de tamanho) já tinham donos dedicados, mas me receberam com muito pêlos e boas lambidas, sem cerimônia, num espaço que não era meu – mas que se tornou fundamental para a minha sanidade mental e sobrevivência, nessa loucura que é São Paulo.

Pensando agora, sobre o tema proposto para esse post, nem sei se fiz o certo do modo que expus as coisas. Mas espero que vocês se sintam estimulados com a minha experiência e não temam em levar para as suas casas um pouquinho dessa alegria animal. É recompensador.

E muito mais simples que se pensa.

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NÃO TEM COMO ADOTAR UM BICHINHO? AJUDE! É FÁCIL!

Max – Total Alimentos conta com um programa de responsabilidade social chamado Max em Ação. No hotsite, é possível localizar ONGs cadastradas no projeto e fazer sua doação através do site, com valores a partir de R$6 (equivalente a 1kg). A cada doação feita para a ONG de sua preferência no site da campanha, a Max acrescenta mais 50% em cima. Ou seja: se você doa 10kg, a Max acrescenta mais 5kg e a ONG recebe, somente na sua doação, 15kg de ração.

Nós já temos garantido 1 tonelada de ração, mas que tal nos ajudar a aumentar este montante? Divulgue o link da ABEAC no Max em Ação na sua blogagem coletiva e nas redes sociais, incentive leitores e amigos a doarem ao menos o mínimo. Juntos podemos fazer mais e nosso objetivo é chegar em pelo menos 2 toneladas de ração para a ABEAC e garantir barriguinhas cheias por mais tempo. Vamos juntos nessa? :D

Link da ABEAC no Max em Ação:
http://bit.ly/doaABEAC

 

Esta blogagem coletiva faz parte do projeto Abraçando Patinhas, uma iniciativa do Rotaroots em parceria com a marca de ração Max – da fabricante Total Alimentos (http://www.maxtotalalimentos.com.br/). Esta iniciativa reverterá na doação de 1 tonelada de ração para a ABEAC , ONG responsável pelo bem estar de cerca de 1100 cães. Saiba mais sobre o projeto no site do Abraçando Patinhas ou participando do grupo do Rotaroots no Facebook.

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domingo.

Que coisa chata é a companhia da gente. Nosso próprio tempero, nossos pensamentos, o som da nossa própria voz. Que coisa cansativa é não ter com quem compartilhar uma boa ideia, ser obrigada a guardar aquela frase incrível, de um livro mais sensacional ainda, para um outro dia, para nós mesmos, para coisíssima nenhuma.

Que perturbador é perceber-se sem ter o que fazer. Sem vontade nem de ver um filminho, de pijama o dia todo, contando os minutos para que um minuto se passe.

Que entediante é estar sozinho. Não solteiro, não sem namorado ou sem um grande amor, digo sozinho sem ninguém, sem contato humano, sem telefone celular, internet, sem a menor noção do que se passa lá fora.

Porque aqui dentro, sem dúvida, é puro tédio.

Que dureza é ter que ouvir nosso silêncio. Voltar-se para dentro sem poder fugir, sem ter ninguém para reclamar, chorar, comentar, sorrir. Que chatos somos nós mesmos quando precisamos nos encarar.

Que decepção é perceber que sabemos lidar com todo o tipo de gente.

Menos com quem a gente é.

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para dois.

Pra duas pessoas darem certo em qualquer relacionamento, de qualquer nível
elas precisam de disposição.
Não só amor, não só paixão. Não só de sexo de qualidade.
Até porque, até o melhor dos sexos, sem sentimento, entedia mais que a pior das conversas.

O amor muda com o tempo
Porque a gente muda também
E se nessas mudanças alguma coisa se desalinha
nasce alguém
morre alguém
aparece alguém
ou algo dentro da gente vai embora
não adianta insistir. Quase nunca.

Nem batizado de bebê dá certo quando a gente está toda errada por dentro.
Nem velório de primo distante.
Nem jantar romântico pra salvar casamento.
Nem spa pra perder 3 quilos.

Pra duas pessoas darem certo em qualquer relacionamento, de qualquer nível
e serem interessantes e interessadas umas pelas outras
precisamos entender que às vezes seremos desagradáveis na mesma proporção
que estamos desagradados
que nada é perfeito como se imagina
e que por mais românticos, malucos e insensatos que sejamos
é preciso ponderar.

E saber que amar nem sempre é tão maravilhoso quanto se deseja.

 

Mas bem que poderia ser.

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quando a gente deixa pra lá.

Alguém me disse, certa vez, que relacionamentos longos têm ligação direta com a desonestidade. Que quando você está há muito tempo com alguém começa a deixar de falar algumas verdades – e a ignorar aquilo que já não está tão bom assim.

Não se importa mais com o cabelo bagunçado, com a roupa amassada e deixa de apreciar, também, os tais dos detalhes tão pequenos de nós dois que são citados naquela famosa música. Tenho pra mim que é exatamente por esse relaxamento em relação ao amor que as coisas começam a desandar.

As pessoas, então, passam a estar juntas por pura inércia, como num barco; até dá pra pular, mas tudo vai ficar tão movimentado (e molhado) que é melhor continuar onde está. No marasmo rumo à nada, onde não se pode dar um próximo passo, nem se casa, nem se separa. Nem se renova, nem desiste. É triste. É chato. E acreditem: é muito mais comum ser infeliz no amor estando com alguém do que dizem as estatísticas de casais estáveis por aí.

Aliás, vamos falar de estabilidade. Não existe, ao meu ver, um relacionamento mais chato do que aquele que é estável. Daqueles nos quais você faz sempre as mesmas coisas porque sim. Porque habituou. O mesmo beijo, a mesma posição na hora do sexo, o mesmo restaurante, a mesma sobremesa, a mesma visita familiar de domingo, o cinema de quarta. Me dá preguiça só de escrever esse texto.

Odeio estabilidade – em todas as áreas da vida – da emocional à financeira, juro. Não há nada pior do que deixar pra lá aquela coisa de fazer surpresa, elogio, de marcar uma viagem, de sair com os amigos pra um rolê, porque… Huummm…Estabilizou. Não há coisa mais terrível que sofrer o carma de estar o resto da vida com alguém que nunca muda, que não se reinventa. Precisamos de um esforço danado pra nos mantermos sempre iguais.

Jovens, não façam isso, não. Jamais.

Se está chato com 26, imagina lá pros 50. Se tá um marasmo louco agora, no auge da vida loka cabulosa, imagina gente, imagina na Copa quando as coisas ficarem realmente zuadas. Sério.

Melhor que a morte seja rápida e indolor antes, né? Ou melhor escolher logo ser feliz.

Vai doer bem menos no final das contas. Eu acho.

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no rascunho de 2011.

Quando você me ligou eu estava no banho, eu lembro. Tinha acabado de depilar as pernas e de usar aquele shampoo incrível que deixa os cabelos cheirando 3 quarteirões. Quando você me ligou eu virei do avesso, por dentro assim, dei um pulo. Não sabia se colocava roupa de inverno ou de verão, na dúvida levei comigo um casaco. Estava com o coração quente, com os pés gelados, com a cabeça fresca.

Éramos tão jovens, eu lembro, tão inconsequentes. Eu queria terminar, queria começar, queria que fosse pra sempre. Queria beber vinho até perder a razão, até perder o sentido, até voltar a beber vodka com energético. Lembro que você me levou num barzinho aconchegante, que passava os dedos nas minhas pernas. Lembro que estávamos felizes por nada, por estarmos ali, apenas, juntos por coisa nenhuma. Você contou da sua chácara em Itu, comentou que sentia falta dos seus avós. Disse que só conseguia dormir com as luzes completamente apagadas, e suspirou quando lembrou que teria que viajar pra bem longe, na semana seguinte. Que começava no dia de amanhã.

Começamos, então, a fazer planos que sabíamos que nunca concluiríamos. Nos beijamos como se fosse a última vez, a última gota. O caminho de volta foi longo, foi triste. Eu lembro. E lembro que você, apesar de querer conhecer o mundo inteiro, tinha ele nas mãos e deixou cair no chão fazendo bastante barulho. Alto.

E nunca mais conseguiu juntar os pedaços que ficaram espalhados por aí.

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o lado bom da vida.

Todo mundo, o tempo todo, me manda largar tudo. Largar tudo e seguir os sonhos, viver a vida como ela deve ser, buscar a felicidade. Essas mesmas pessoas citam casos de sucesso, gente que vive com pouco e vive bem, gente que faz o que ama, que uma hora encheu o saco dessa vida média de acordar, trabalhar e dormir e resolveu ousar, pedir demissão, dar um tapa na cara do chefe, mudar de país, etc, etc, etc.

As pessoas também insistem em dizer que tenho potencial. Que sou excelente naquilo que faço, que não posso engolir tantos sapos, me submeter a tantas coisas, que não devo perder tanto tempo dentro de um escritório, gastando minha criatividade com coisas e pessoas que não dão à minima pra isso, criticam e, pior ainda: acham que é fácil. Acham que a criatividade vem do nada, pro nada e só serve para tornar as coisas mais atraentes, bonitas, vendáveis. E é isso. Pagam muito bem engenheiros para que sejam construídos prédios, mas pagam muito mal profissionais que constroem ideias. Porque é impossível mensurar o sucesso de coisas abstratas, não é? Pelo jeito é. Mas essa é uma discussão para outro post.

Todas essas pessoas que me mandam raspar as pernas e cair na vida estão (bem) empregadas. Todas continuam em seus cargos cheios de rotina, encarando a vida, pagando as prestações das casas Bahia e morando de aluguel. Nenhuma delas saiu de onde estava sem uma nova proposta de trabalho e nenhuma faz puramente o que gosta – desconfio, aliás, que ninguém faça.

Porque trabalhar implica também em ser um pouco miserável, em acordar cedo, dormir tarde, em se esforçar, aprender, crescer. Não se reconhece a plena felicidade sem ter vivido o lado ruim da coisa, e, cara, se trabalho fosse 100% bom (e precisamos de pelo menos algum dinheiro pra viver), chamaria lazer.

Entendo o que todas essas pessoas, amigos, amigas, vizinhos e familiares, querem dizer. Entendo que seria muito bom mesmo fazer algo que valha verdadeiramente a pena, que acrescenta na alma e que, de quebra, encha o bolso. Só não vejo motivos para jogar tudo o que eu tenho na vida até agora pro alto para ser feliz. Até porque, desculpem-me os idealistas, felicidade também é poder comprar uma passagem pra Berlim e conhecer coisas incríveis, comer em um bom restaurante, presentear quem a gente ama com algo bacana e, pessoal, isso tem custos. A vida, até mesmo a mais simples, tem seus custos.

O meu “tudo” no momento não me manda de volta nem pra São Vicente. Não me deixa um lugar pra morar nem os boletos em dia, se é que vocês me entendem.

Sinto muito por quem acredita na minha imensa capacidade em ser mais que uma mera funcionária. Isso é o que temos por ora.

Eu não estou, ainda, TÃO profundamente infeliz com isso, só um pouquinho. Mas certamente em busca de dias melhores.

Pra sempre.

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regra dos 30.

Foram mais ou menos 30 segundos – os mais longos do mundo – e suficientes para que ela soubesse que não valia mais a pena estar ali. Deu aquele estalo, aquele mal estar súbito e a vontade louca de ir embora  foi  se instalando pelo corpo inteiro, de cima a baixo, de lado a lado, do nada. Não queria mais que ele encostasse no seu cabelo, que ele a chamasse de linda, não queria mais ficar parada, sentada, naquela mesa de jantar. Tudo parecia forçado, fora de foco, brega, completamente inadequado.

Ela ficou imaginando situações extremas para se livrar daquele redondo que ocupava o peito. Poderia ter um terremoto, uma guerra, cair uma bomba naquele lugar, poderia começar um incêndio no rechaud, quem sabe? Queria sair correndo. Voando. Em 3, 2, 1.

Beliscou a comida, forçou um sorriso. Foi no banheiro 3 vezes, tomou vinho. E nada. Nada.

Iniciou uma conversa sobre música, sobre cinema, sobre o rodízio, sobre o clima e pronto. Era o fim da linha. Quando não se consegue sustentar, sequer, um diálogo de elevador, existe uma coisa muito errada entre duas pessoas.

Achou que seria imaturo simplesmente fugir pela porta de trás. Achou que seria indelicado forçar uma doença qualquer, um ênjoo, uma dor de cabeça. Fingir que viu uma barata, então, nem pensar. Não ia colar por muito tempo.

Aguentou a pressão. Ficou até o final. Nem o maravilhoso frango à milanesa salvou aquele encontro. Nem a batata frita. Deu um beijinho forçado e sem graça no rosto dele, prometeu que ligaria, correu para a portaria. Sumiu.

O tesão pode não salvar ninguém, definitivamente. Mas a ausência dele pode nos fazer viver situações terríveis.

Em menor e maior grau.

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por que os homens devem parar de agir como macacos? (e as mulheres de gostar disso).

Para quem não acompanha o blog desde o início, e não sabe muito sobre a minha vida, nasci e cresci em Santos, uma cidade de mais ou menos 500 mil habitantes no litoral sul de São Paulo. Como é muito comum em cidades de praia, homens, mulheres e crianças, ricas ou pobres, gordas ou magras, por simples imposição geográfica e climática, optam por usar roupas mais leves, curtas e são obrigadas a conviver com um calor que, em janeiro, pode chegar aos 40 graus.

Neste contexto, nos meus mais de 18 anos de história bem vividas por lá, era comum ver mulheres usando vestidos e saias justos, shortinhos jeans e saídas de praia completamente transparentes, regatas e decotes sem, no entanto, exibir mais do que o adequado para a tal convivência social que divide o bacana do vulgar – critérios dos quais eu nunca vou entender por completo.

Lembro-me bem que quando cheguei em São Paulo era janeiro, e  fazia uns 33 graus. Como já havia sido orientada pelas amigas paulistanas, vesti calça jeans e camiseta, derretendo no asfalto, e estranhei que num lugar onde tantas pessoas vivem aglomeradas – o tempo inteiro – as mulheres insistiam em nunca, jamais, colocar um vestido ou uma saia para ter um pouco mais de conforto no verão. Afinal, num país tropical, quem se submeteria a usar burca em situações nas quais essa não fosse uma exigência? Quem aceitaria viver cobrindo suas formas quando, definitivamente, não estaria exibindo nada além dos joelhos para ter um dia um pouco mais fresco? Em pouco tempo descobri: quem convive constantemente com o medo. E quem entende que não é a roupa curta, justa, decotada ou a calça jeans que impõe limites.

Em São Paulo conheci as mulheres mais incríveis, evoluídas e intelectuais da minha vida. Conheci gente de direita, de esquerda,  da periferia, da elite  e, talvez, devido às características da minha profissão, passei bastante tempo ouvindo histórias e aprendi muito com cada um dos personagens que, aos poucos, foram me fazendo ter vontade de escrever – e trazer à tona os relatos que, de tão diferentes, encontravam-se em algum ponto. Fui testemunha e protagonista de casos de assédio – leves e brutais – de cantadas de mal gosto, de olhares abusivos e de mais uma série de sutilezas que me fizeram pensar: por que, exatamente, aceitamos conviver em meio a tanta violência?

Há muito nos perdemos do aceitável. Há muito nos consideramos culpadas – e não vítimas – do atrito social que divide o sexo e os desejos da agressão verbal, física e moral. Há muito até passamos a gostar disso (salvo as devidas proporções) e, em alguns, casos a utilizar a sedução como ferramenta para conquistar as coisas que de nada tem a ver com o corpo. Nunca estivemos tão presas.

Só sei que alguma coisa se perdeu. A liberdade de como se comportar atingiu níveis incontroláveis – tudo é possível, tudo é permitido, tudo se torna aceitável.

Acho que esse deve ser mais um daqueles momentos em que a sociedade volta à barbárie, sabe? Pra eliminar o que está ruim. E não faço a menor ideia de como começar a combater isso.

Só sei que escrever, e apenas isso, não adianta. Ainda assim, me senti na obrigação de fazê-lo.

Homens e mulheres, pensem, mudem. Tem pouca gente por aí fazendo isso.

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