da arte de não se importar.

Nunca me preocupei com as (más) interpretações do amor.

Sempre chamei pra sair quem eu queria e disse o que tinha vontade. Nunca me importei em ser tida como louca, carente, apegada ou desesperada. Nunca me preocupei também se seria julgada como vagabunda, piranha, galinha, “dada”, aliás, acho que todos nós podemos ser o que quisermos, quando quisermos e com quem quisermos. Que preguiça tenho de gente que acha que todo o ser humano é uma coisa só, que cabe numa caixinha de definições e previsibilidades entediantes. Se você ainda não errou, vai errar. Se você ainda não teve vontade, vai ter. Se não esteve no lugar que mais julga errado, complicado ou imoral, vai estar. E que pena se você nunca viver um desses papéis. Vai perder um bocado.

Não vim para essa vida à passeio, definitivamente. Se cheguei, se amei, se estou aqui, que seja para dar a cara à tapa. Se o outro se incomodar com essa ou aquela atitude, com essa ou aquela opinião, palavrão, ou resposta ácida, já não me serve. Às vezes, nem para ser amigo. Em pouquíssimos casos minhas atitudes se reverteram em algo desagradável ou desastroso, não sei, na verdade. Meu processo de seleção de pessoas para conviver é bruto, direto, não deixa nada sem pingos nos is.

Acho que alguns seres humanos talvez não estejam preparadas para o sincericídio, não foram treinados para lidar com ele. Viver é coisa forte, cara. Quando você se deparar com a intensidade das relações (e sentimentos, e palavras, e atitudes), e um dia vai ter que lidar com isso, não pode ficar apático. Ou se é, ou não se é. Ou está, ou não está. Quando somos impulsivos, podemos perder muito. Ou fascinarmos quem merece, tornando todo o processo de encantamento e paixão muito mais divertido – e recíproco – ainda que lá pra frente (e quem se importa com lá pra frente?) não dê em nada.

A sedução é direta. Ao menos pra mim, sempre foi.
As conquistas pedem ousadia, pedem um pouco de medo, pedem fôlego.

Se não é para provocar nada no outro, nem comece. Não vai valer a pena. Pode confiar em mim.

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O trabalho, o tesão, a faísca.

Terminei o colégio com a certeza de que havia encontrado minha vocação na vida.

Bem pouco tempo depois, percebi que essa coisa de vocação era muito maior do que apenas encontrar uma profissão — e que circulava por muito mais nuances da minha personalidade das quais eu poderia prever.

Desde aquela época eu já era apaixonada por artes, por letras, já ficava fascinada em entender os humanos, suas necessidades, complexidades, em como as obviedades do nosso cotidiano, que pareciam fruto do acaso, de nada eram ocasionais.

Quando conclui a graduação de Jornalismo, me sentia vazia de lógica. Os livros e referências só ampliaram em mim a necessidade de entender mais sobre as relações humanas e aquele sistema de escrita, de negócio, aquelas regras e estruturas, ensinadas e pregada sem fim, me pareciam entediantes, previsíveis e completamente insuficientes para expressar as tantas muitas coisas que eu queria — mas não sabia entender, ainda.

Tudo fez sentido, eu lembro bem, quando já na minha segunda graduação, em Desenho Industrial, vi uma palestra incrível sobre tendências, da Electrolux. Descobri, ali, que queria ser cool hunter, embora ainda não seja. E que havia nascido com aptidão pra isso, se é que isso de aptidão existe.

O meu negócio era prever o desejo dos outros, despertar esse desejo, planejar coisas para que as pessoas, assim como eu, se tornassem fascinadas por algo — fosse um objeto, uma banda, uma carreira, ou um novo eletrodoméstico — naquele caso.

A vocação é um negócio que transborda de você. Que faz com que cada parte do seu corpo trema com uma nova ideia, com um conceito que tenha relação com o que te interessa. É o que te inspira, te faz sair do lugar comum, pesquisar sem fim coisas que, aparentemente, não tem relação nenhuma e que, no fim das contas, tem tudo a ver.

É aquela banda estranha que só você gosta. A mania de fazer listas. O hábito de escrever cartas. As sutilezas sobre você que você mesmo desconhece (ou desconhecia). É o que não te deixa dormir de excitação. E te faz ter gastrite, morrer de nervoso, de paixão, de tesão.

Demorei algum tempo para encontrar esse tesão no que faço. Demorei, aliás, pra entender que o tesão tem que estar em mim e ser transferido para as demais coisas. Todas elas. E, aos poucos, na rotina, tento fazer com que outras pessoas, aqui e ali, sejam picadas pelo mesmo mosquitinho que eu. E que encontrem nas suas tabelas, imagens, estatísticas, naquilo que fazem mecanicamente, sem nem entender por que, sabe-se-lá, uma faísca. E que também se sintam incendiadas a ser muito mais que um dia imaginaram que poderiam ser.

Sabe, a vida é mesmo incrível quando a gente sabe o que quer. E somos capazes de absolutamente tudo.

Ao menos eu penso assim.

 

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amores em trânsito.

Quando o coração está livre – e a cabeça longe da vida real – os olhos encontram alguém em qualquer lugar em que passamos mais de 10 minutos. Todos os dias era assim: ele se apaixonava por uma pessoa diferente ao entrar no ônibus, como se buscasse se reconhecer. A ruiva, a tatuada, a estudante de medicina; cada viagem permitia novos amores, assuntos e aproximações – para nunca mais serem revividos.

Os amores transitórios costumavam ir e vir tal qual a capacidade de sonhar, e aconteciam com uma intensidade avassaladora de dar gosto à rotina. Quantos não foram os planos feitos de instantâneo, as histórias, palavras e universos inteiros que ficaram ali, na mente, ao sentir um perfume ou ao ler a capa interessante de um livro? Quantas não foram as possibilidades para ser feliz, ter filhos, cachorro, família, casa de praia, viagem para o exterior, por que não? Quantos não seriam os romances bem sucedidos para contar, para testar, e para durar mais que a parada no próximo ponto?

Muitos, infinitos. Tantos quanto fosse possível idealizar.

Uma pena que quase nunca é possível descobrir se a recíproca dos amores urbanos pode ser verdadeira.

São Paulo anda muito, muito depressa.

E o nosso coração, devagar. Infelizmente.

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la passion.

“Quais são os sintomas da paixão?” – uma amiga perguntou.

Coração acelerado e retardamento mental. Uma cegueira que pode durar de 3 à 6 meses. Sudorese nas mãos, nos pés, e no rosto todo (incluindo aí um rubor na face que não dá pra esconder). Descontrole da voz, dos pensamentos, dos passos, das horas, de todo o conjunto de coisas que, normalmente, conseguimos controlar. Troca de mensagens constante, frequente, desenfreada. Risadas sem fim, ausência de roupas que prestem no armário e um desejo quase que desesperador de encostar no outro (mesmo que sem querer).

Vontade de sair correndo e dar um pulo, pra aliviar as coisas que não param de dar giros no estômago. Capacidade de se encantar novamente com o mundo: com os animais, crianças, idosos, flores, pássaros e até com o trânsito paulistano, esse lindo. Encurtamento de distâncias físicas. Sensação constante de ser capaz de mudar o universo, o mundo, o outro e a si mesmo. De uma vez.

Necessidade de voltar a utilizar o telefone em tempos de internet, vontade de voltar a visitar a praia em tempos de vida noturna, de comer salada, frutas e de começar uma dieta; agora, definitiva.

Sentimento constante e avassalador que move o mundo, tira o sono, a atenção, a fome e todo o senso de ridículo que possa existir.

Se não são esses os tais sintomas, da sua tal paixão, desencane: deve ser só falta do que fazer mesmo.

E das bravas.

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solteiros s.a.

 

Quando um relacionamento termina ficamos com uma parte dele meio latente, meio nociva, dentro da gente. É normal. O problema é que  essa parte é capaz de criar raízes e nos consumir, nos fazer pessoas céticas. Mesmo quando somos a parte que tomamos a decisão de partir, é estranho habituar-se a ser um quando dois tornou-se regra. É estranho pensar por si só. E mais complicado que reaprender  a fazer as tarefas do dia-a-dia sem reportar nada a ninguém ou sem um planejamento prévio que pondere aquilo que a outra pessoa também gostaria que fosse feito, é não saber encarar os novos amores. Não encontrar nunca alguém que seja suficientemente bom ou agradável a ponto de ter nossa companhia. Apaixonar-se é chato. Cansa. Exige um esforço que nem todo mundo está disposto a viver novamente e que pode vir a trazer dores maiores no futuro, óbvio. Das coisas boas sempre surgem as ruins.

Quando somos jovens as oportunidades são infindáveis, nossa vida social está à mil. Na escola, na academia, no clube, nas festas de 15 anos… Somos obrigados a nos mover para frente e a esbarrar, inevitavelmente, em novos contatos, pessoas, amigos de amigos que estão tão disponíveis quanto o desejado. Infelizmente, com o tempo, tendemos a trabalhar mais e viver menos. Nosso círculo de amizade torna-se mais restrito e a cada nova pessoa que encontramos pensamos, investigamos e refletimos: será que vale mesmo a pena?

Quase sempre a resposta é não.

Aos quase 30 as pessoas já viveram muitas coisas. Algumas tem filhos, algumas se separaram, algumas nunca conseguiram encarar um relacionamento de verdade e não estão dispostas a viver um agora. É crítico. E numa sociedade que nos incentiva a viver cada dia mais sós, as pessoas não estão se movendo para juntar-se e sim, para separar-se. Se nem os amigos conseguimos ver com frequência, que dirá os futuros affairs.

Se as pessoas estivessem felizes com essa realidade esse texto não teria sentido, mas recebo inúmeras reclamações sobre a solidão. Sobre como as pessoas andam complicadas, fechadas, difíceis. E eu queria mostrar que as coisas são dessa forma porque nós mesmos estamos assim. A culpa não é dos outros, é nossa. Sempre nossa. Ninguém vai aparecer na porta da sua casa e te pedir em namoro. Ninguém vai descobrir afinidades, semelhanças, ninguém vai te achar desejável se você não se mover.

Ainda que pareça muito melhor estar só, uma hora, cansa.

E perde a graça.

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a saga do ex.

É inevitável que ele ou ela estejam entre as memórias recentes. No cheiro, na chuva, nos lugares, tudo vai parecer trazer um pouquinho do que foi um dia, mas que já não era mais faz um bom tempo.

É inevitável não se arrepender pelas coisas ditas ou não ditas, por aquelas que foram feitas e pensar naquilo que se planejou e que não irá viver mais. Não tem como não fazer uma auto-análise, se culpar um pouco, se perdoar outro tanto e se questionar: em que momento eu fui alguém tão diferente? Sob quais circunstâncias?

Eventualmente vocês estarão no mesmo bar ou no mesmo shopping e talvez se encontrem antes mesmo das coisas estarem totalmente resolvidas – seja no racional, seja no emocional. Provavelmente você vai vê-lo com alguém que detesta e com pessoas que não são dignas da amizade nem de um, nem de outro –  e que já é sabido por ambas as partes. Talvez você sinta pena, ciúme, talvez você não saiba definir esse processo complicado que é desamar. Talvez não se julgue capaz de lidar com a distância, a ausência e a saudade, não dele ou dela, mas de alguém pra contar as novidades no final do dia ou para te acompanhar em um programa de índio que só sabem àqueles que amaram tanto a ponto de nem se importar com isso.

Certamente você vai se perguntar em que ponto se tornou tão alheia a sua própria vontade a ponto de aceitar certas coisas, como será que anda a família do outro? Será que ele ou ela já está com um novo amor?

Ex é uma da coisas mais permanentes da vida, seja amigo, seja amante, seja marido ou namorado. Ex vai estar sempre lá, de alguma forma, te relembrando da sua parte humana e das coisas boas e ruins que um relacionamento é capaz de proporcionar. É quem (in) felizmente vai te apontar seus erros e vai escancarar que talvez precisemos mesmo crescer um pouquinho, mudar um pouquinho e pensar um poucão sobre aquelas coisas que você sempre preferiu deixar de lado.

E é só tendo de onde recordar que a gente aprende como, quando e por onde, a lidar com a parte ruim das coisas boas. Que sempre estarão lá.

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síndrome de Pokemón.

Mulheres que falam como criança. Que gritam quando vêem um determinado personagem de desenho. Que só usam rosa, pijama de bichinho, glitter e Hello Kitty. Mulheres que se ofendem facilmente e que se ouvirem uma palavrão ficam horrorizadas. Mulheres tão meigas, tão agradáveis, tão perfeitinhas que são irritantes. Que choram quando confrontadas, que não toleram “não” como resposta. Tenho visto um aumento muito grande desse tipo feminino que costumo chamar de  “Pokemón” – só que sem evolução.

Fico tentando entender o que leva um ser humano de sexo feminino, com quase 30 anos na cara, agir como se tivesse 5. Seria algum tipo de atraso mental? Seria falta de pai e mãe para orientar que aquelas atitudes não condizem com a idade?

A mulher Pokemón quer chamar a atenção sendo algo que não é, é a vagabunda recalcada, reinventada (com todo o respeito às vagabundas). O lobo em forma de cordeirinho arrependido. Tão imatura, tão infantil, que é impossível acusá-la de matar uma formiga – ai ela vai lá e mata um leão – só que os homens não reparam. Aliás, talvez toda essa encenação seja mesmo culpa deles; que acham linda essa fragilidade forçada. Talvez, não. Só gostaria de deixar aqui registrado o meu apelo pelo fim das mulheres Pokemón – que envergonham a nossa espécie – e reforçam ainda mais o esteriótipo de mulher objeto que tanto queremos nos livrar.

Ursinhos são lindos, eu adoro. Mas morro de alergia.

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o tal do grande amor.

Quando eu tinha 15 anos conheci alguém que sempre me pareceu muito próximo daquilo que chamamos de “o grande amor da vida” – e tenho quase certeza que ele vai ler esse post.

Conversamos, ficamos, namoramos, nos magoamos, fomos, voltamos e por muitas das coisas que eu vivi durante o tempo que estávamos juntos, comecei a escrever esse blog que na verdade era outro, já desativado, chamado “Cemitério das Idéias”. O blog no começo era um local de desabafo que me ocasionava muitos problemas pessoais, onde eu compartilhava minhas experiências amorosas e tentava entender, de tudo quanto é jeito, que diabos é isso que todo mundo chama de amor.

Acho que ainda não consegui.

O amor é tão diferente pra cada pessoa que você só entende quando está dentro dele e, ainda assim, quando se vive, não se entende. Amar é não entender algumas coisas que sempre se pergunta, por isso é delicioso.

O mais interessante é que a vida, ao longo desse tempo, deu suas 83784744684 voltas; entrei numa faculdade, me formei, deixamos de nos falar, voltamos a nos falar, nos desentendemos mais umas centenas de vezes, nos odiamos, tivemos muitos momentos de “remember“, rimos, choramos, partilhamos de situações complicadas, traições, namoros mal sucedidos, filho, amigos e tantas, tantas coisas que só ele, que viveu tudo comigo, sabe direitinho como foi.

A gente acha que não evolui nada na vida, que nada muda. Que continuamos com os mesmos problemas, sentimentos, contextos, parâmetros e que sempre, SEMPRE, sentiremos uma pontinha de alguma coisa que seja por esse tal de grande amor, que a gente amortece o que sente, mas nunca se liberta, em 100% , do passado que foi bom.

Tive, ao longo dos últimos 9 anos, tantos possíveis “novos amores da vida”, tantas pessoas que me fizeram feliz e que eu tinha certeza absoluta de que era amor e, ainda assim continuava a esbarrar sempre na mesma comparação: a de que é possível sentir bem mais – porque eu mesma já havia sentido.

Não que os romances não fossem, de fato, verdadeiros. Eram. Mas com diferentes caras, porque o amor tem dessas; para cada pessoa um novo sentimento. Para novas idades, novas vidas: uma constante evolução.

Quando eu já havia desistido de sentir novamente as tais emoções dos 15 anos,  sem querer, sem esperar, sem ficar pensando sobre isso ou me perguntando em que momento as coisas se tornaram tão complicadas e frias entre as pessoas, acabei sentindo. E demorei pra perceber.

A mesma cumplicidade, o mesmo frio na barriga, a mesma ansiedade, o mesmo desejo de fazer planos bestas. Tudo novo de novo (e por alguém novo, amém!)

E a nova Ericka ficou tão feliz de reencontrar com essa parte perdida dentro dela que até escreveu esse post. E vai tentar fazer tudo bem direitinho dessa vez.

Vai que funciona?

 

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