a morte de quem ainda vive.

Peguei essa imagem aqui óh: http://www.talinkadomano.com/tag/morte/

Todos os dias, no caminho para o trabalho, passo por 3 cemitérios e pelo menos 40 floriculturas. Nunca tive problemas com a morte, muito pelo contrário. Lido tão bem com ela que deveria ser estudada, não é possível. Devo estar canalizando a perda dos entes queridos em algum outro setor da minha vida, provavelmente comendo mais fast food do que deveria, aliás, mas não é sobre isso que vim falar nesse post.

Todos os dias, além de passar por 3 cemitérios e 40 floriculturas, fico pensando em quanto tempo ainda me resta aqui na Terra. Sei que em vida não devemos pensar em quando vamos morrer, até porque, não temos o menor controle sobre isso, mas a verdade é que não tenho medo de morrer: tenho medo de não ter tempo de realizar todos os meus sonhos. De não conseguir casar (!!!), ter filhos, vê-los crescer, fazer um sem número de viagens que eu tanto planejo e nunca vou, esse tipo de coisa. Acho que quando alguém se vai deixa um legado, uma imagem na vida daqueles que ficam. Mais que as saudades, mais que os bens, mais que as flores que colocamos para homenagear nossos queridos – o importante, e também, o que fica, é aquilo que construímos em vida. O quão filhos da puta, ou não, fomos com os nossos pais, avós, amigos, primos e todas àquelas demais pessoas que vamos prestar nossa solidariedade em um velório.

No dia em que eu morrer, aliás, quero um churrasco com piscina – já deixo registrado aqui. Muito pagode, muitas risadas, muitas fotos e boas memórias. Se tem uma coisa da qual eu me preocupo em deixar para as pessoas é a imagem de que elas sempre – SEMPRE – podem contar comigo. E de que, apesar dos pesares da vida, eu tenho uma vontade imensa de viver tudo até secar, de fazer mil coisas ao mesmo tempo, de aprender tudo aquilo de interessante que puder, de conhecer novas culturas, músicas e tudo o mais que eu puder.

Por que, afinal, estou falando de morte? Porque recentemente perdi meu avô. E uma pessoa muito querida, está, mais uma vez, enfrentando um câncer terrível, sem merecer. Aliás, quem merece adoecer no auge dos seus 20 e tantos anos? Ninguém. Mas gostaria de dizer que aqui, ou no outro plano, o que importa é sermos felizes e fazermos as pessoas que amamos felizes. Não é pra sair por aí enlouquecida como se o mundo fosse acabar. Mas é pra reclamarmos menos e agirmos mais. Corrermos atrás daquilo que interessa sem ficarmos muito preocupados com nossa imagem, horas de sono ou grana no banco no final do mês.

No final das contas, realmente, quando a gente morre a gente descansa. E não leva nada do que tanto acumulou.

Não temos mesmo como saber quanto tempo vamos durar, se vamos morrer de gripe, de acidente ou de morte morrida. Mas temos (e devemos!)  tornar nossos dias mais doces, mais leves e melhores. Para nós mesmos. E para quem está conosco nessas jornada.

Como diria Veríssimo, quem quase vive, já morreu. E não há nada mais desagradável que alguém que não dá valor a absolutamente nada que conquistou.

Ser morta em vida é, sem dúvida, meu pior pesadelo.

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laços.


Todos os dias, lá pras 5 da tarde, eu costumava pegar elevador com um senhorzinho bem senhorzinho mesmo, o Seu João. Sempre muito simpático, já corcundinha, com aquela voz que todo o velhinho tem, ele me contava sobre os 5 filhos, os quase 13 netos e do quanto lhe sobrava amor pela vida. O Seu João, que morava no 9º, às vezes vinha comigo até o 13º só  porque tinha uma necessidade de conversar, e eu, de escutar aqueles micro e repetitivos causos que ele contava (porque eu sei que no fundo, seremos todos como ele um dia.)

Hoje de manhã entrei no elevador e há algumas semanas eu estava sentindo falta do Seu João. Olhei os recados da água (que vai faltar), dos condomínios (que estão com muito atraso) e um bilhetinho, rosa, escrito à mão, por alguém que tinha poucas palavras a dizer. Hoje, vão realizar a missa pela morte do velhinho mais simpático que eu conheci na igreja da Consolação, às 19hs, e eu acho que não vou ter coragem de ir.

Não pela morte, pelo caixão ou pelas velas, não tenho paura de nada disso. Acho que é pela facilidade que os laços se fazem e desfazem nas nossas vidas e do quanto nos apegamos sem mesmo conhecer direito as pessoas. Nunca soube que o Seu João era doente, não sabia nem que ele estava hospitalizado, mas isso nunca importou. As poucas palavras que trocamos com algumas pessoas na vida são o suficiente para nutrirmos por elas uma relação, às vezes, inexplicável. Com vocês também é assim? Sou capaz de contar a minha vida inteira num ponto de ônibus.

A caixa do supermercado que me atende todos os dias, o dono da padaria que sempre faz piada quando eu compro meu Toddynho de manhã, a minha ex-chefe que me irritava por tanto tempo e hoje eu sinto falta… É incrível como a nossa memória é capaz de guardar partes tão boas de pessoas tão efêmeras e se apegar a isso, como se elas fossem primordiais na vida da gente.

Não sei quanto à minha participação na vida dessas mesmas pessoas, mas que o Seu João vai me deixar um buraco danado quando baterem os sinos das 5, com certeza vai.

E que fique em paz onde quer que esteja.

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