(às vezes) é melhor não ter consciência.

Você até pode dizer que não, mas sabe que é verdade: todo mundo se importa com o que o outro pode pensar. Em menor ou maior nível, os julgamentos atrapalham a nossa vida de alguma forma e é impossível, no trabalho, na família, na rua, na chuva ou na fazenda, viver da forma como a gente quer sem pensar em absolutamente nada. É fato.

Mas mais importante que aquilo que os outros pensam sobre a gente é o que pensamos sobre nós mesmos. E aqueles momentos nos quais somos confrontados em relação às nossas atitudes pela consciência, entre ser feliz ou ter razão. Porque, convenhamos, às vezes ser feliz é fazer uma coisa que foge dos nossos princípios. Ser feliz exige que sejamos canalhas, egoístas. Ser feliz, às vezes, pede que esqueçamos as dores e as cicatrizes de um passado recente e nos joguemos puramente no desconhecido. Ser feliz às vezes pode parecer burro e inconsequente, mas ninguém quer ser infeliz. Ninguém quer saber que pode ter o melhor de alguma determinada situação ou fase e se ver impedido, por si próprio, a não seguir adiante.

Nossos conflitos internos são muitos. São bizarros. Acontecem o tempo todo. Não quero aqui incentivar ninguém a agir de forma maluca, nem a ferir outras pessoas em prol da mera satisfação pessoal, principalmente se ela for momentânea. Mas vale colocar em perspectiva o quão críticos somos em relação às nossas atitudes. O quão podemos flexibilizar nossa mente e coração para permitir – e por que não nos permitir às vezes? – a viver algo que parece imoral? Ilegal? Engordativo?

Uma das coisas mais incríveis dos seres humanos é a capacidade de conter instintos. E uma das coisas mais aprisionadoras, em contrapartida, é o nosso senso moral. De justiça. Nossa capacidade de nos limitar às inúmeras regras que sim, somos obrigados a seguir, para viver em harmonia com nós mesmos e com os demais membros da sociedade. Mas às vezes, só às vezes, fazer merda aduba a vida. E faz florescer coisas inimagináveis em terrenos inférteis.

Agir contra a consciência pode nos meter em muita confusão? Pode, claro. É preciso ter parcimônia e responsabilidade sobre tudo o que se faz. Só que a regra de que tudo em excesso faz mal, também se aplica nesse caso. A vida é implacável.

Mande aquela mensagem, fique com aquele cara. Supere essa perda, namore quem você ama. Perdoe. Perca a memória sobre algumas coisas, passe um pano nas boas lembranças, recorde, reviva, reaja.

Vai fazer bem.

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o amigo de um amigo meu.

Meu amigo tem um amigo que ama demais. Ama instantaneamente. Passa por um único final de semana ensolarado, de carinhos e conversas sem sentido e pronto – já está lá amando, prometendo casa, comida e roupa lavada. Basta um churrasco, uma caipirinha e uma moça de bom papo. É isso. Ele já está alucinadamente apaixonado.

Esse amigo do meu amigo não espera virem as primeiras brigas, os desentendimentos. Tem tanta pressa de amar e ser amado que pula todas as etapas – boas, ruins e medianas – dos relacionamentos convencionais. Já casou e descasou três vezes. Poderia ter tido uns 10, 12, 15 filhos se não fosse um sujeito prevenido:

“Amar demais é uma coisa, ser bobo é outra”, ele diz.

Pelo menos 3 vezes por semana esse amigo do meu amigo encontra pela rua alguns ex-amores, cheio de sabores. Nunca guarda rancor de nada e todo o relacionamento verdadeiro e eterno que ele vive por final de semana, mais ou menos, acaba da mesma forma que começou – sem grandes conhecimentos, explicações, sem desculpas ou ensaios. É tudo ou tudo, de uma vez só. Paixão, declarações desenfreadas e paz, sempre.

Diz esse amigo do meu amigo que quando se perde a paz, perde-se também o amor. Que quando as pessoas começam a querer obrigar as outras a ficar, a amar, a declarar-se, a estar presente e a retribuir, lógico, o tal do amor maior do mundo, é sinal que o amor acabou.

E ele segue essa regra.

Não se deixa prender demais, apenas se perde. Finge que vai ser assim pelo tempo que tiver que ser, e ama a Roberta, a Carla, a Carmem, a Sara, a Patrícia, as Joanas e Priscilas intensamente. Todos os amores foram grandes amores, todos foram excelentes, todos ensinaram muito e não erraram em momento nenhum. Esse amigo do meu amigo quer tanto amar e ser amado, quer tanto ter a certeza de que fez a escolha certa que prova todas as flores do jardim. Primas, amigas, vizinhas, todas que estiverem dispostas a viver tempos breves e bons ao seu lado.

E há muitas que topam.

E acham mesmo que o que vale no amor é ser feliz enquanto puder, sem amarras.

Mesmo que perder doa, mesmo que sejam brevemente substituídas. Melhor conhecer o amor e saber que ele existiu do que nunca, sequer, ter a chance de sentí-lo.

E é só isso. E mais nada.

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