bons drink.

De vez em quando, passeio pela Augusta. Sou daquelas paulistanas que tem a sorte de morar perto do centro e de todos os corpos e copos que por lá habitam. Entre um gole e outro, um novo casal de velhos amigos, jovens amantes, intelectuais de esquerda, direita e centro. Muitas histórias. Minhas e alheias. Mais minhas que alheias, aliás. Choros velados, batatinhas cheias de óleo reaproveitado e uma aura intensa de que tudo, em absoluto, pode ser vivido para sempre – da mais intensa dor ao mais delicioso caso de amor. Muitas são as proibições, as atitudes fora da lei, os erros cometidos de toda uma juventude influenciada – e influenciável – que vive até secar. Como se hoje fosse o último dia de todo o resto de uma vida inventada. Como, às vezes, é. Ou como se hoje fosse só o começo de uma fase nova e intensa de rebeldia, de descobertas e de muitos posteriores arrependimentos. Ou tudo ao contrário.

Toda a vez que subo ou desço pelos bares, galerias e pequenas ruas que por lá se instalaram naturalmente, me pergunto um pouco sobre quem eu sou, quem eu fui e quem um dia eu gostaria de ser. Poderíamos congelar uma vida inteira nos bons momentos, ficar por lá pra sempre. A Augusta é um pedaço da praia sem nenhuma relação com a original, mas com uma capacidade incrível de fazer sua mente girar e, perceber, que mesmo em meio ao caos da cidade grande, suas estranhezas e peculiaridades, alguns lugares a gente acaba aprendendo a chamar de lar. E a gostar de suas diferenças, daquilo que elas significam e de tantos outros sentimentos provocantes que nos acometem – para o bem ou para o mal.

Vamos tomar um choppinho?

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uma praia para amar.

Emissário submarino, por Mauricio Mascia.

 

Encontrar-se em uma cidade é como apaixonar-se por alguém que sempre esteve lá e você nunca deu valor; ninguém escolhe, afinal, onde deseja nascer, que nem pai e mãe: são eles é que escolhem conhecer a gente.

Poderia falar de todos os casos de amor e ódio, dramas e crises, poderia contar como é bom caminhar pelo calçadão da orla e da sensação de conforto ao enxergar o enorme peixe na entrada da cidade quando volto de São Paulo para cá, mas Santos é bem mais que isso; é um lugar para chamar de meu. Uma cidade que me traz de volta todas as sensações de estar um pouquinho mais próxima da sanidade, um pouquinho ao lado de Deus. Pode parecer exagero, mas quando piso na areia é mais fácil respirar. Sair à noite é leve, as pessoas são simples, a comida menos gordurosa. Os amigos e as idéias são fáceis, soltas, como se por alguns instantes não existisse mais a correria da semana, os problemas pessoais ou o stress.

Há quem reclame da praia, que não é tão bonita, quanto a do litoral Norte. Há quem diga que não há nada para se fazer aos finais de semana pela baixada e que todo mundo se conhece e não sabe, um saco, mas não há quem consiga se sentir confortável quando sai daqui.

Santos não é só um lugar para envelhecer com qualidade de vida, como dizem por aí, é também um lugar para crescer, amar, estudar, conseguir encontrar a si mesmo sem precisar sair do lugar. Uma vez nascido e criado na praia, é difícil gostar do concreto e das coisas da metrópole, como se os pés precisassem de um respiro, como se fosse necessário ouvir o mar, andar de bicicleta ou encontrar-se com os amigos lá no Emissário, num fim de tarde à toa,  para experimentar o melhor churros do mundo.

Quando somos jovens temos a falsa ideia de que é preciso viajar para conhecermos um pouco de tudo aquilo de bom que se deve ter, quando, na verdade, precisamos mesmo é conhecer a nós mesmos.

Santos é provinciana, quadradinha, não precisa de GPS, nem de radar, não precisa de celular com wi-fi e nem de mais de 50 reais para se divertir com tranquilidade. Você encontra um pouco do luxo, um pouco do que há de simples, um pouco de cozinha refinada e um excelente pastel de feira. Em Santos é impossível se perder. A não ser que seja de amor por cada pequeno momento que você nunca mais consegue esquecer ao encontrar-se por aqui.

E foi em Santos que eu aprendi a valorizar as coisas simples. E a entender que mesmo depois de ir e voltar, diariamente, não existe nada como estar em um lugar que a gente pode chamar de lar.

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