O trabalho, o tesão, a faísca.

Terminei o colégio com a certeza de que havia encontrado minha vocação na vida.

Bem pouco tempo depois, percebi que essa coisa de vocação era muito maior do que apenas encontrar uma profissão — e que circulava por muito mais nuances da minha personalidade das quais eu poderia prever.

Desde aquela época eu já era apaixonada por artes, por letras, já ficava fascinada em entender os humanos, suas necessidades, complexidades, em como as obviedades do nosso cotidiano, que pareciam fruto do acaso, de nada eram ocasionais.

Quando conclui a graduação de Jornalismo, me sentia vazia de lógica. Os livros e referências só ampliaram em mim a necessidade de entender mais sobre as relações humanas e aquele sistema de escrita, de negócio, aquelas regras e estruturas, ensinadas e pregada sem fim, me pareciam entediantes, previsíveis e completamente insuficientes para expressar as tantas muitas coisas que eu queria — mas não sabia entender, ainda.

Tudo fez sentido, eu lembro bem, quando já na minha segunda graduação, em Desenho Industrial, vi uma palestra incrível sobre tendências, da Electrolux. Descobri, ali, que queria ser cool hunter, embora ainda não seja. E que havia nascido com aptidão pra isso, se é que isso de aptidão existe.

O meu negócio era prever o desejo dos outros, despertar esse desejo, planejar coisas para que as pessoas, assim como eu, se tornassem fascinadas por algo — fosse um objeto, uma banda, uma carreira, ou um novo eletrodoméstico — naquele caso.

A vocação é um negócio que transborda de você. Que faz com que cada parte do seu corpo trema com uma nova ideia, com um conceito que tenha relação com o que te interessa. É o que te inspira, te faz sair do lugar comum, pesquisar sem fim coisas que, aparentemente, não tem relação nenhuma e que, no fim das contas, tem tudo a ver.

É aquela banda estranha que só você gosta. A mania de fazer listas. O hábito de escrever cartas. As sutilezas sobre você que você mesmo desconhece (ou desconhecia). É o que não te deixa dormir de excitação. E te faz ter gastrite, morrer de nervoso, de paixão, de tesão.

Demorei algum tempo para encontrar esse tesão no que faço. Demorei, aliás, pra entender que o tesão tem que estar em mim e ser transferido para as demais coisas. Todas elas. E, aos poucos, na rotina, tento fazer com que outras pessoas, aqui e ali, sejam picadas pelo mesmo mosquitinho que eu. E que encontrem nas suas tabelas, imagens, estatísticas, naquilo que fazem mecanicamente, sem nem entender por que, sabe-se-lá, uma faísca. E que também se sintam incendiadas a ser muito mais que um dia imaginaram que poderiam ser.

Sabe, a vida é mesmo incrível quando a gente sabe o que quer. E somos capazes de absolutamente tudo.

Ao menos eu penso assim.

 

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o machismo nosso de cada dia.

Nós mulheres reclamamos dos salários reduzidos em relação ao dos homens. Nos orgulhamos por sermos multifuncionais e, ainda assim felizes, por sermos capazes de cuidar da família, da carreira e ter a proeza de encontrar tempo para nós mesma num dia de apenas 24hs. Isso tudo é ótimo, é excelente, mas parem e reparem: somos muito machistas. Muito mesmo. Justificamos tantas coisas injustificáveis que chega a ser assustador.

Não é problema deles o sexo ser ruim, nós é que talvez não gostemos tanto disso. Eles batem em uma mulher porque se descontrolam, não porque tem a ver com algum tipo de problema grave que não saibam lidar. Achamos normalíssimo sermos traídas, porque homem, afinal, quer uma mulher boa de cama e só.  De vez em quando até gostamos dos comentários desrespeitadores sobre a nossa roupa, nossos peitos ou nossa bunda. Não fomos treinadas para combater insultos e para não nos submetermos às agressões físicas sutis que se multiplicam nos transportes públicos, nos shows de rock, ou em qualquer lugar que tenha uma pequena multidão que justifique uma “apalpadinha”.

Não sabemos dizer não. Não aprendemos que mulher também pode (e deve) ter prazer e que isso depende das duas partes do time, e não só de uma. Não sabemos admitir que gostamos disso ou abominamos aquilo; sem saber o que nos faz feliz ( e sem saber o que gostamos ou o que queremos, desistimos de cobrar). Achamos feio quem gosta de sexo e fala abertamente sobre isso, achamos vulgar, baixo e há quem tenha vergonha até do próprio ginecologista. Questionamos de onde vem tanta violência e preconceito e, em casa, criamos nossos filhos como pequenos reis, desvalorizando o trabalho que fazemos e deixando que eles acreditem, desde muito cedo, que cuidar da casa é coisa de mulherzinha.

Julgamos demais. A mulher solteira, a divorciada, a gorda, a sapatão. Sem perceber que talvez elas estejam certas e que com bem menos hipocrisia tenham melhorado consideravelmente nossas vidas por fazer barulho, por nadar contra a maré, por tentar se libertar dessa raiz patriarcal tão forte, mas tão forte, que chega a distorcer o que é o feminismo.

A feminista moderna pode se apaixonar, pode depilar as pernas, gostar de rosa e olha só: pode até querer agradar o marido. Aliás, quem disse que pra ser alguém consciente sobre seu corpo, seus direitos e tudo o mais que lhe valoriza e lhe representa precisamos deixar de ser MULHERES, femininas, diferentes?

Está mesmo tudo errado no mundo. E talvez a culpa seja só nossa. E do modo como acreditamos que tudo, em absoluto, é imutável.

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