As intermitências do tempo.

time spin GIF by Tony Babel
 Ser adulto é um negócio muito doido.

Você não repara que cresceu, não repara que o tempo passou. Ontem tinha 15, depois fez 18 e, no meu caso, nem conseguiu tirar carta de motorista, ainda. Em um estalo estava aqui, nos seus quase 31, com marido, casa e os amigos tendo filhos. Você não tem uma exata consciência de quando tudo mudou, como mudou e no que se tornou. Nesse processo, de praticamente 15 anos de intervalo, existiram tantos possíveis caminhos, pessoas, histórias e se perderam outros tantos (caminhos, pessoas e histórias) que aquela máxima de que o tempo voa se torna, de fato, uma verdade. O tempo é fumaça. Hoje você reclama que o dia não passa, que o trabalho está de matar, pisca, passaram-se semanas. Passaram-se meses. Você já fez aquela viagem, foi naquele show, já tirou férias, já trabalhou tudo de novo, já mudou de emprego e tudo já voltou ao início do que um dia parecia ser – mas que já não é mais.

Quando você vê, o cabelo não é mais o mesmo, nem a barriga. Você nem concorda mais politicamente com o que antes concordava. Já não sabe porque, como ou onde fez tais amigos e também não sabe porque se tornou amiga de pessoas tão diferentes de você – e em qual das suas versões aquelas pessoas fazim algum sentido. Já se sentiu sobrecarregado de tarefas e entediado na mesma medida, sufocado com uma legião de mentes para contar, atender e compartilhar a vida e, de repente, se sentiu sozinho. Já sofreu perdas e ganhos talvez na mesma proporção. Proporção essa que, talvez, nos próximos 30 anos, tenda a se desequilibrar na balança mais para perdas que para ganhos, afinal, mas não pensemos nisso. Nunca pensemos nisso.

Vivemos a vida adulta como uma sucessão de tarefas, de funções, de ambições, de sonhos, de dias corridos meio cinzas com cerveja e batata frita no final, mas não conseguimos parar muito para refletir sobre nada. Num dá tempo. E dá muito medo também pensar sobre as incertezas e sobre as certezas da nossa vida, se fizemos as escolhas certas, se estamos no caminho certo, nos questionamos até, e inclusive, sobre o que seria certo mesmo nessa bagunça toda. Continuamos a correr, e lutar e a conquistar coisas que não sabemos se queremos mesmo porque na vida é isso que nos cabe: fazer logo para que fique feito. Mesmo que não esteja bem feito. E se algum adulto te disser que sabe para onde está indo, desconfie. A gente até consegue trilhar caminhos, mas não tem como prever, nem nas cartas de tarô ou no horóscopo da Susan Miller, o que ainda não veio. Somos construção. E se faltar cimento, damos um jeito de colar as partes e de construir algo que nos caiba. Para o hoje, para amanhã ou no máximo para semana que vem. O tempo é fumaça. E não conseguimos guiá-lo – ainda que tentemos – com a precisão desejada. Talvez aí, ganhemos alguma coisa. Se não dá para solidificar o amanhã, do jeitinho que imaginamos, que hoje seja o melhor dia de todos os dias já vividos. Somos adultos mesmo sem todas as respostas. E talvez, nunca sequer saibamos as perguntas.

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