A vida que a gente inventa.

Existe uma coisa muito louca – e muito triste – sobre a vida adulta: a tal da frus-tra-ção. Essa palavra tão pequena, tão objetiva e tão cheia de sentido é muito, muito difícil de ser superada. A gente finge que lida bem com ela, enfia todos os sentimentos relacionados à dor e a angustia provocada bem no fundo do peito, coloca um sorriso no rosto e finge, literalmente, que nada está nos abalando ao longo dos dias. Nadinha de nada.

Quando ficamos adultos percebemos a essência de todos os problemas familiares passados, compreendemos de onde vieram as proibições, as broncas e, principalmente, as restrições da nossa infância. Sabe aquela frase que sua mãe repetia incessantemente quando queria justificar algo aparentemente injustificável? “Quando você chegar nessa fase você vai entender?” Então, chegamos. E percebemos que entender é muito mais simples que aceitar as realidades – prazeres e dessabores – de como a vida se apresenta.

A gente é um universo. Inventa um montão de coisas na nossa cabeça ao longo de toda infância e juventude e acredita, piamente, que é capaz de fazer tudo, ser tudo, chegar em qualquer lugar. E é. Só que nada é tão simples como uma festa de 15 anos, nada é tão fácil quanto era, olha só, aquela prova final de Física. Ser adulto é um eterno saber administrar decepções. Não se escravizar pelos próprios erros. Levantar, sacudir a poeira e voltar a caminhar. É tentar manter a sanidade em meio a diferentes desequilíbrios profissionais, financeiros e pessoais, lidar com pessoas, medir palavras, melhorar e evoluir filtros. A todo o momento. Adulto não tem duas férias escolares por ano. Não tem tempo de lavar a roupa, de dormir bem, de se alimentar com equilíbrio – a gente tenta, o tempo todo, mas nunca chega naquele momento em que se sente satisfeito com a vida como ela está, o que motiva e desmotiva a gente, como numa gangorra.

A gente é feliz, a gente conquista um monte de coisas, a gente evolui, a gente não pára de batalhar – e nem pode – mas não vive, definitivamente, aquela vida que a gente criou na mente e achou que seria natural. Não existe sucesso natural ou felicidade natural a gente constrói as coisas que quer e, digo mais: da maneira que dá.

Você pode estar super bem resolvido aos 25, ou não, você pode ter uma família totalmente estruturada aos 35, ou não, você pode ter tido filhos – ou até netos – aos 45, ou não. Não existe mais aquela lineariedade pueril. Depois da 5a série não necessariamente vem a 6a, a gente às vezes pula logo pro colegial,e tem que se virar de alguma forma, ou regride lá pra pré-escola e tal, sofrendo de coisas que achou que já tinha superado, faz parte.

É assim pra mim, pra você, é assim até práqueles seus amigos que já tem casa, comida, viagem internacional todo o ano e ainda acham que não conquistaram nada.

Tá infeliz? Levanta e anda. Opte por viver pelo menos uma parte do que você inventou. Se não, você fica preso sempre na fantasia e, convenhamos, a realidade um dia te cobra. E dói pra caramba.

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