nos intervalos.

Houve um tempo em que eu queria fazer tudo. Estar em duas cidades ao mesmo tempo e praticar quantas atividades físicas/sociais minha falta de sono contemplasse. Me agoniava faltar em algum aniversário, não estar em um almoço de família ou não conseguir ver um filme, ler um livro, ou alguma coisa que me agregasse valor intelectual ou emocional. Havia, nessa época, uma urgência, um desespero por desfrutar cada coisa até secar; sem perceber que as coisas, para serem bem saboreadas, precisavam também de um tempero. De um respiro.

Me dei conta, em termos jornalistico-publicitários, que vivia o briefing dos meus momentos, nunca a obra completa, visto que era impossível abraçar o mundo. Impossível perceber as sutilezas, os sorrisos, as fofocas e as nuances de cada momento. Perdia a noiva bêbada no final do casamento. Não dançava a quadrilha bagunçada, cheia de gritos, onde ninguém é de ninguém. Estava, mas não era.

E hoje, olha só que coisa doida é a vida, só consigo estar em locais que realmente me importam e tolerar situações que muito me acrescentam – porque aos poucos se percebe também que cada prazer tem seus amargores.

Viver nos intervalos, penso hoje, talvez seja mais importante que estar na ópera. É no backstage que estamos vulneráveis, sem máscaras ou fantasias, que nos despimos dos nossos personagens e temos aqueles cinco minutos de contemplação no qual pensamos: cara, que bom é estar aqui. Que deliciosa são essas pessoas, essa comida, quão feliz me faz essa música. E por aí vai.

Aprecie o tempo entre um relacionamento e outro, entre um prato e outro, entre uma viagem e outra. Não é só nos momentos principais que se vive. Aliás, talvez vivamos mais como coadjuvantes que como personagens principais.

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3 Comments

  1. Eu não podia chorar hj, pq estou toda delineada. Vc estragou isso, quando me fez lembrar de mil pequenos momentos.

  2. Ah, os pequenos momentos, detalhes tão pequenos, e tão, TÃO importantes. Ler seu texto me fez refletir e tô tentando fingir que lágrimas não rolaram. Que a gente possa aproveitar mais os momentos como coadjuvantes e parar de querer sempre ser protagonista. Afinal, o mundo num tá pra nos servir.. Valeu pela leitura! 😀
    :*

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