machismo homeopático.

As feministas que me desculpem a sinceridade – e compreendam essas palavras meio tortas – mas sinto falta do machismo. Daquele protetor, que nos tratava feito rainhas. Que abria a porta do carro e que cuidava de nós com fragilidade; porque sabia que não conseguiria sobreviver em um mundo onde as mulheres ficassem feridas por qualquer motivo. Quem iria cuidar de tudo, afinal?

Sinto falta daquele machismo que nos impedia de lavar a louça aos domingos, depois de um dia exaustivo onde cuidávamos da comida, da roupa, das compras de mercado, dos filhos, de nós mesmas e da organização da vida de todos para o dia seguinte. Você pode gritar, pode reclamar e me chamar de maluca, mas dos anos 50 pra cá quantas mulheres permanecem cumprindo esses mesmíssimos papéis? 96%. E, vou dizer um negócio, que mal há nisso? Posso queimar sutiã em praça pública, mostrar os peitos, a bunda e gritar contra a objetificação feminina e, ainda assim, depilar minhas pernas. Pintar as unhas. Gostar de sexo. Colorir os cabelos, usar desodorante. Que preguiça eu tenho de quem se obriga a ser uma coisa só.

Tenho saudades daquele machismo que ensinava os filhos a idolatrarem suas mães, a não bater em mulher (nem com uma flor), e a tratar toda e qualquer representante do sexo feminino com respeito, não porque somos fracas, mas porque somos tudo ao mesmo tempo.

Não sei, aliás, quem inventou essa coisa de fraqueza ou força entre os gêneros, que métrica cretina para se avaliar uma pessoa. Até porque, tirar um ser vivo da barriga não é pra qualquer um. E sangrar todo o santo mês independente das nossas escolhas sexuais (e de vida), não me parece coisa de quem não aguenta o tranco. Agora, vai desencravar a unha de um machão de academia, vai. O cara aguenta carregar um carro popular nas costas, mas chora baixinho pra depilar meia perna.

Fraqueza e força, aliás, não dizem nada sobre coisa alguma – e ainda bem. Porque se há uma coisa que nos faz ter vantagem acima dos homens é a nossa sensibilidade em relação a vida – e às suas complicadas ligações e relações que se dão de forma sutil.

Sinto falta daquele machismo que tem inveja das sapatões – porque estas podem ter o melhor de todos os mundos e ainda ser extremamente sensuais fazendo isso – e daquele outro que acredita que os machos precisam ser provedores financeiros ainda que a gente não deixe. Aliás, já disse, vamos parar com isso, mulherada! O cara que nos paga a conta não está fazendo isso porque somos incapazes e inferiores – muito pelo contrário. Ele o faz porque somos incríveis. E nada mais além disso.

Ter ou não dinheiro, gostar de gastar dinheiro, de mostrar dinheiro, ou de qualquer coisa que envolva as capacidades financeiras de alguém – e o poder de controle social que isso gera –  também é uma métrica estúpida demais para avaliar quem somos. Rasa demais pra minha concepção de feminismo.

Num mundo onde se luta por igualdade entre seres tão diferentes eu fico é feliz de ser tratada com gentiliza. Não nos ofendamos com pequenos e poucos gestos de cuidado, com disputinhas por controle e espaço. Uma mulher é estuprada e morta a cada 5 minutos e você ainda continua aí achando que o problema está em pagar a conta do jantar? Por favor. Vamos evoluir.

Já nascemos com a capacidade de ocupar múltiplos – e inúmeros – papéis. Filhas, avós, netas, mães, sobrinhas, amigas, guerreiras, donas de casa, solteiras, divorciadas, histéricas, compreensivas, delicadas, firmes e mais uma porção de adjetivos que podem nos definir, ou nos dividir, com a mesmíssima força. Mas, aparentemente, nada nos une tanto quanto a nossa loucura. Quanto as nossas crises, surtos e inseguranças. Quanto nossas alterações malucas de humor, fome e sono e o quanto isso nada tem a ver com o fato de gostarmos de meninos, meninas, gansos ou de tudo isso junto. É físico.

É natural.

E embora você esteja aí, lamentando ou se felicitando por ter nascido mulher, não pode fugir dessa regra: somos todas desequilibradas. Doidinhas. Surtadas. E incrivelmente sensacionais por isso.

Hoje, no dia internacional da mulher, gostaria de parabenizar os homens que, de tão machistas, ainda conseguem compreender nossas muitas (e complexas variáveis). Há uma esperança, afinal, para a perpetuação da espécie.

A gente também não viveria sem vocês – como pais, avós, filhos, amantes, maridos ou mecânicos.

Porque metade de nós é bem mulherzinha, serei honesta. E no fundo, no fundo, a outra metade, também.

 

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5 Comments

  1. Já que vc publicou no Rotaroots que você foi polêmica e pedia desculpas, peço desculpas pra aproveitar a polêmica, rs ^^

    Eu entendo o seu ponto de vista. Vou trazer uma conversa que eu tive com um amigo uma vez, pra mostrar o meu ponto de vista.

    Meu amigo me perguntou: se eu ajudar uma mulher a carregar suas sacolas, eu sou machista? Eu perguntei: por que vc faria isso? Pq estão pesadas e ela não está aguentando. Vc tem algum interesse por trás disso? Não. Se a mulher parecesse mais forte q vc, vc ainda ajudaria ela? Talvez. Se fosse um homem vc ajudaria? Acho que não.

    (ou algo parecido com isso, rs)

    Todo mundo gosta de pessoas gentis. Que ajudam a carregar sacolas, que puxam a cadeira, que mandam flores, etc. E eu não vejo problema nenhum em uma pessoa ser gentil (ser gentil não significa ser machista). A questão é: por que só os homens podem ser gentis? Por que a mulher não pode abrir a porta pro homem entrar/sair do carro?

    E aí a gente começa a se perguntar pq dessa cultura de que os homens gentis são cavalheiros e a mulher não precisa cuidar do homem também, num movimento que vai e volta, e não de uma via só.

    E sendo assim, eu acho que vc tem uma ideia equivocada do que é o machismo. Porque deixar pagar a conta, ser dona de casa, gostar de ser paparicada não é machismo, machismo é achar que a mulher não deve trabalhar ou que é dever do homem pagar a conta; machismo é achar que a mulher que é responsável por cuidar da casa e dos filhos ou não deixar que o homem interfira nas questões da casa ou da educação dos filhos; machismo não é se preocupar e cuidar de uma mulher, mas sim achar que ela é incapaz de se cuidar sozinha ou achar que a vida só esta completa quando existir um homem pra fazer todas os seus mimos.

    O machismo é a doença desse cuidado, dessa atenção, é colocar a mulher como inferior, é fazer ela ser dependente e se aproveitar disso seja lá por qual motivo.

    E todas nós fomos criadas nessa sociedade machista que colocam várias pequenas regras escondidas, que a gente acaba nem achando que é machismo – ou confundindo machismo com gentileza. Por isso eu entendo esse ponto de vista.

    Mas cuidado, não é a mesma coisa.

    Fique tranquila. O feminismo não vai acabar com tudo isso não.
    Meu namorado também é feminista, e ele adora me mimar – e eu deixo, porque eu sei que todo esse cuidado não é opressão, é compromisso em fazer o outro bem.

    Pense nisso!
    Beijoka!

  2. Nati, ameiii seu comentário!! Obrigada por colocar caldo no meu feijão de discussão e falar o que pensa!! Concordo com vc! Acho, na verdade, que pensamos a mesma coisa. O texto foi mais uma crítica a esse modelo mesmo, que a nossa sociedade está inserida, mas talvez não tenha demonstrado isso e fico feliz não só por vc ter vindo até aqui, mas exposto de um jeito tão bacana seus argumentos!!! Obrigada,mesmo!!! E já fui no seu blog comentar tb!! 🙂

  3. Ericka, finalmente consegui ler um post sobre ‘machismo’ com o qual me identifiquei. Até estava comentando no blog do Rodrigo, hoje: qual é o problema de um homem ser gentil? Não seria a gentileza uma forma de respeito? Poxa vida, eu SEMPRE vou fazer questão de que abram a porta do carro pra mim ou que segurem minha bolsa. E vou me derreter toda com uma flor no dia da mulher. Realmente acho que existem formas tão piores de ofensa… Não consigo acreditar que isso seja machismo, e que isso seja assim, tão ofensivo. Eu só acho que a gente deve acreditar no que o outro sente, e se ele faz porque quer, porque ama e gosta… Porque não, sabe?

    Enfim, amei cada parágrafo do teu texto. :~)
    Beijinhos!

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