o lado bom da vida.

Todo mundo, o tempo todo, me manda largar tudo. Largar tudo e seguir os sonhos, viver a vida como ela deve ser, buscar a felicidade. Essas mesmas pessoas citam casos de sucesso, gente que vive com pouco e vive bem, gente que faz o que ama, que uma hora encheu o saco dessa vida média de acordar, trabalhar e dormir e resolveu ousar, pedir demissão, dar um tapa na cara do chefe, mudar de país, etc, etc, etc.

As pessoas também insistem em dizer que tenho potencial. Que sou excelente naquilo que faço, que não posso engolir tantos sapos, me submeter a tantas coisas, que não devo perder tanto tempo dentro de um escritório, gastando minha criatividade com coisas e pessoas que não dão à minima pra isso, criticam e, pior ainda: acham que é fácil. Acham que a criatividade vem do nada, pro nada e só serve para tornar as coisas mais atraentes, bonitas, vendáveis. E é isso. Pagam muito bem engenheiros para que sejam construídos prédios, mas pagam muito mal profissionais que constroem ideias. Porque é impossível mensurar o sucesso de coisas abstratas, não é? Pelo jeito é. Mas essa é uma discussão para outro post.

Todas essas pessoas que me mandam raspar as pernas e cair na vida estão (bem) empregadas. Todas continuam em seus cargos cheios de rotina, encarando a vida, pagando as prestações das casas Bahia e morando de aluguel. Nenhuma delas saiu de onde estava sem uma nova proposta de trabalho e nenhuma faz puramente o que gosta – desconfio, aliás, que ninguém faça.

Porque trabalhar implica também em ser um pouco miserável, em acordar cedo, dormir tarde, em se esforçar, aprender, crescer. Não se reconhece a plena felicidade sem ter vivido o lado ruim da coisa, e, cara, se trabalho fosse 100% bom (e precisamos de pelo menos algum dinheiro pra viver), chamaria lazer.

Entendo o que todas essas pessoas, amigos, amigas, vizinhos e familiares, querem dizer. Entendo que seria muito bom mesmo fazer algo que valha verdadeiramente a pena, que acrescenta na alma e que, de quebra, encha o bolso. Só não vejo motivos para jogar tudo o que eu tenho na vida até agora pro alto para ser feliz. Até porque, desculpem-me os idealistas, felicidade também é poder comprar uma passagem pra Berlim e conhecer coisas incríveis, comer em um bom restaurante, presentear quem a gente ama com algo bacana e, pessoal, isso tem custos. A vida, até mesmo a mais simples, tem seus custos.

O meu “tudo” no momento não me manda de volta nem pra São Vicente. Não me deixa um lugar pra morar nem os boletos em dia, se é que vocês me entendem.

Sinto muito por quem acredita na minha imensa capacidade em ser mais que uma mera funcionária. Isso é o que temos por ora.

Eu não estou, ainda, TÃO profundamente infeliz com isso, só um pouquinho. Mas certamente em busca de dias melhores.

Pra sempre.

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22 Comments

  1. Ai, Gabi! Se eu tivesse tempo eu faria todos os dias! Mas é difícil, viu? Obrigada pelo carinho! Mesmo, mesmo, mesmo!

    =D

  2. Sinceramente? Quantas pessoas do seu círculo vc conhece que “largou tudo e tá vivendo de felicidade”? Eu conheço zero. Lindas histórias na internet, lindas reportagens em revistas. Mas ninguém de carne-e-osso-meu-vizinho.
    E é muitissímo fácil dizer para terceiros “SE MEXA. MUDE. LARGUE TUDO. VIVA DE BALÕES E RISADAS” sentadinho no ar condicionado do escritório, esperando o horário do rodízio.
    Acho que sim, podemos melhorar, podemos mudar, mas não acho que a felicidade está nesta grandiosa ideia de que ela só é alcançável quando se faz 100% do que se gosta.
    Acho que a felicidade está naquela caneca de chá quentinha, que se toma antes de dormir enquanto se assiste um seriado. Está em um jantar delicia com as amigas. Em andar de bicicleta no parque num domingo (isso, óbvio se vc souber andar de bicicleta, que não é o meu caso).
    Acho que sim, temos que ir atás de empregos melhores, de salários melhores, de rotinas mais pontuadas com lazer. Mas não de largar tudo. Pq pode ser ótimo no princípio, mas passar fome, morar de favor, dar trabalho e preocupação pros pais também não é felicidade =)

  3. Vamos ser sinceros, não poderemos chegar a lugar nenhum sem uma base sólida que nos dê o suporte para buscarmos algo maior para nossa vida, ou seja, se tenho um trabalho que não me remunera o quanto penso merecer é hora de começar a pensar em um meio, de a partir dos meus ganhos reais neste momento planejar e executar ações que vão desencadear em um novo emprego, passar num concurso ou montar um negócio lucrativo, ao se falar em deixar tudo e seguir outro rumo temos que pensar primeiro que as pessoas que conseguiram chegar ao sucesso não chegaram do nada, as que verdadeiramente conseguiram êxito foram as que não mediram esforços, entenda isso como trabalho e planejamento para se chegar ao sucesso.

  4. Concordo com o que li: seu texto, comentário de Lec e Luiz Carlos.
    A vida é mais do que simplesmente viver e juro, não é uma coca-cola toda. Pode ser um emaranhado de opções, de confusões, de sorrisos e felicidades. Pois quem disse que para ser feliz precisa jogar tudo que está bem fora, querendo o melhor incerto. Arriscar é digno de quem tem coragem, mas jogar ao alto o que está indo – quase- bem é burrice.
    Seu texto foi racional e emotivo ao mesmo tempo! Me identifiquei muito!

  5. Realmente o texto está fantástico, juntamente com a opinião de todos aqui nos comentários também. Sensacional!

  6. Concordo com o que li: seu texto, comentário de Lec e Luiz Carlos.
    A vida é mais do que simplesmente viver e juro, não é uma coca-cola toda. Pode ser um emaranhado de opções, de confusões, de sorrisos e felicidades. Pois quem disse que para ser feliz precisa jogar tudo que está bem fora, querendo o melhor incerto. Arriscar é digno de quem tem coragem, mas jogar ao alto o que está indo – quase- bem é burrice.
    Seu texto foi racional e emotivo ao mesmo tempo! Me identifiquei muito!

  7. Concordo com o que li: seu texto, comentário de Lec e Luiz Carlos.
    A vida é mais do que simplesmente viver e juro, não é uma coca-cola toda. Pode ser um emaranhado de opções, de confusões, de sorrisos e felicidades. Pois quem disse que para ser feliz precisa jogar tudo que está bem fora, querendo o melhor incerto. Arriscar é digno de quem tem coragem, mas jogar ao alto o que está indo – quase- bem é burrice.

  8. Cheguei aqui por indicação da Natália Diogo, uma amiga em comum 😉 Adorei o texto e só tenho a dizer que seja como for, faça o que te dá prazer e paga suas contas e se não dá prazer, encontre uma maneira de ser feliz com isso. Eu sai de uma agência que amava, para trabalhar com meu marido e ter mais tempo para meu filho, deu certo, é corrido, mas tenho o que eu mais amo por perto, alguns amigos estão distantes por conta do tempo, mas não deixam de ser queridos e quando existem encontros, eles são verdadeiros e intensos. O chato é alguém fazer você engolir o que não te pertence…se vc esta bem, continue, se não está, aceite sugestões, aceite elogios, não leve tão a ferro e fogo, saiba distinguir quem lhe quer 😉
    bjs

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