brasileiridade.

Pense comigo, caro leitor, quantos CDs de música nacional você comprou atualmente?

Quem são os artistas tupiniquins que te fazem pagar um valor desonesto para ir a um show? E quantos desses estiveram no Loolapalooza, ou nas últimas edições do Rock in Rio, dos quais  você teve crises histéricas desejando assistir?

Pense também nos livros que anda lendo. Quantos autores brasileiros contemporâneos você conhece? Além de ler “Crônicas de Gelo e Fogo”, “50 Tons de Cinza”, “Os Diários de Carrie” ou “100 anos de Solidão”, quantas vezes você esbarrou, assim, numa Adriana Falcão? Num Luis Fernando Veríssimo?

Pense em tudo aquilo que você consome que foi feito para a TV. Quem escreve as séries que você ama? Não sabemos o nome nem dos roteiristas dos filmes internacionais mais renomados, que dirá dos nacionais. Não nos interessamos em saber de onde vem a criação das coisas, se tem origem sueca, indiana, ou se vem ali óh, da Zona Sul de São Paulo.

Quantos artistas gráficos, arquitetos, escultores, circenses, quantos profissionais de entretenimento você admira? Quais desses tem real identidade com o seu país? Aposto que quase nenhum.

Você aí, que acha o capitalismo uma merda, que acha os políticos ladrões e o transporte público uma vergonha, sabe o real valor que isso têm? Sabe que as militâncias não adiantam em nada se não falarem a linguagem das pessoas? Se representarem apenas uma classe e não uma nação?

Insistimos o tempo todo pela valorização da cultura, por salários melhores para os criativos. Reclamamos que o nosso povo não lê, não se interessa por cultura e que só consome funk e sertanejo sem qualidade, mas não é verdade. Consumimos cultura o tempo todo, popular, erudita, só não fazemos a menor ideia de onde ela vem, ou do porque só coisas bem ruins vingam. Ou da importância que essas coisas têm. E mais que isso: não vemos a propagação das ideias nacionais com 1/8 da ênfase que sabemos sobre jogos de computador, por exemplo. Sobre os lançamentos dos filmes da saga Senhor dos Anéis. Não há buzz nenhum no lançamento de “Tainá”, mas a gente quase tem convulsões para estar na primeira fila de “O Homem de Ferro”.

Pensei nisso, porque ontem, lendo uma matéria sobre blogs, percebi que tenho os dois talentos mais desvalorizados que alguém pode ter: o de desenhar e o de escrever. Todo mundo gosta quando lê algo bacana, ou acha agradável uma arte bem feita, mas ninguém da valor. Ninguém acha que por trás de um artista de rua, de palco, de boteco, de agência, há um real trabalho intelectual sendo feito, um referencial difícil de se construir, resgatar, elaborar e estruturar.

Um humorista não é só um cara engraçado ou irônico. Um escritor não é só um sujeito que sabe bem as regras de português.

Nos tornamos máquinas de produzir coisas complexas, o tempo inteiro com a cabeça a mil, e na pequena parte do nosso dia livre consumimos realidades completamente fora da nossa. Hollywood, Bollywood, que seja. Não é errado gostar de outras culturas, é errado não perceber quanta coisa rica existe por aqui e sempre se render  aos best sellers gringos, traduzidos, enlatados e a tudo mais que as grandes editoras nos colocam como sucesso. Depois você vem reclamar que “nosso povo” é inculto. É burro.

Nós somos o povo. E nós ouvimos mais Britney Spears na Joven Pan que Titãs.

Não sei quanto à vocês, mas enquanto Hogwarts existe claramente em várias partes de Londres, aqui, na terra do Carnaval, ela só pode ser construída na minha imaginação. E apesar de incrível, de trazer um enredo altamente envolvente, não tem nada a ver comigo. Se quisermos mesmo fazer aquilo que amamos, se quisermos mesmo ser valorizados por nossos pequenos dons, precisamos também valorizar as produções de quem está conosco nesse barco. De quem insiste em viver de arte no Brasil.

E incentivar nossos filhos a ler Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, Maurício de Souza… E a apreciar o verão, os sabores, as estampas, as cores e tudo aquilo que só tem por aqui.

O Brasil é uma merda sim. Mas em grande parte, é porque a gente vive nele.

E acha que não tem a menor responsabilidade sobre isso.

Você também pode ler

2 Comments

  1. Ameeei seu texto!
    Parabéns.. A tempos venho procurando um blog com conteúdo menos “enlatado” e previsível.
    Fiz um blog por conta disso, mas não tenho o mesmo dom que o seu [escrever]. Então, ainda não dei um corpo para meu projeto de web.
    Posso falar deste post um dia!?rs
    Tenho algumas neuras quanto a esse assunto.
    Quero viajar muito, mas primeiro conhecer o Brasil todo.
    Quero fazer meus playlists, mas dando início no nosso quintal.
    Desejo curtir tendências, que sejam condizentes com nosso clima.
    Gostei mesmo do seu texto!
    Me fez ter ainda mais certeza e que tenho orgulho sim de ser carioca e brazuca, mesmo que tenha que me perguntar todos os dias “que país é esse”!?
    bjinho

  2. Géssica, xuxu, OBRIGADA pelos elogios, pela visita…Vou lá no seu cantinho já, já deixar um comentário!

    =D

    Escrever não é dom não, é PRÁTICA, leitura, persistência… Vc chega lá um dia, tenho certeza!
    E pode falar do post sim, flor! Quando quiser!

    Um beijão!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *