o machismo nosso de cada dia.

Nós mulheres reclamamos dos salários reduzidos em relação ao dos homens. Nos orgulhamos por sermos multifuncionais e, ainda assim felizes, por sermos capazes de cuidar da família, da carreira e ter a proeza de encontrar tempo para nós mesma num dia de apenas 24hs. Isso tudo é ótimo, é excelente, mas parem e reparem: somos muito machistas. Muito mesmo. Justificamos tantas coisas injustificáveis que chega a ser assustador.

Não é problema deles o sexo ser ruim, nós é que talvez não gostemos tanto disso. Eles batem em uma mulher porque se descontrolam, não porque tem a ver com algum tipo de problema grave que não saibam lidar. Achamos normalíssimo sermos traídas, porque homem, afinal, quer uma mulher boa de cama e só.  De vez em quando até gostamos dos comentários desrespeitadores sobre a nossa roupa, nossos peitos ou nossa bunda. Não fomos treinadas para combater insultos e para não nos submetermos às agressões físicas sutis que se multiplicam nos transportes públicos, nos shows de rock, ou em qualquer lugar que tenha uma pequena multidão que justifique uma “apalpadinha”.

Não sabemos dizer não. Não aprendemos que mulher também pode (e deve) ter prazer e que isso depende das duas partes do time, e não só de uma. Não sabemos admitir que gostamos disso ou abominamos aquilo; sem saber o que nos faz feliz ( e sem saber o que gostamos ou o que queremos, desistimos de cobrar). Achamos feio quem gosta de sexo e fala abertamente sobre isso, achamos vulgar, baixo e há quem tenha vergonha até do próprio ginecologista. Questionamos de onde vem tanta violência e preconceito e, em casa, criamos nossos filhos como pequenos reis, desvalorizando o trabalho que fazemos e deixando que eles acreditem, desde muito cedo, que cuidar da casa é coisa de mulherzinha.

Julgamos demais. A mulher solteira, a divorciada, a gorda, a sapatão. Sem perceber que talvez elas estejam certas e que com bem menos hipocrisia tenham melhorado consideravelmente nossas vidas por fazer barulho, por nadar contra a maré, por tentar se libertar dessa raiz patriarcal tão forte, mas tão forte, que chega a distorcer o que é o feminismo.

A feminista moderna pode se apaixonar, pode depilar as pernas, gostar de rosa e olha só: pode até querer agradar o marido. Aliás, quem disse que pra ser alguém consciente sobre seu corpo, seus direitos e tudo o mais que lhe valoriza e lhe representa precisamos deixar de ser MULHERES, femininas, diferentes?

Está mesmo tudo errado no mundo. E talvez a culpa seja só nossa. E do modo como acreditamos que tudo, em absoluto, é imutável.

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