da sedução nas pequenas coisas.

…foi então que Ana percebeu que a sedução precisava ser praticada e que não havia a menor necessidade de se vulgarizar para isso. As pessoas mais interessantes que ela havia conhecido, na maior parte das vezes, não eram as mais bonitas, ou as mais bem vestidas. Também não tinham corpos esculturais ou um olho claro de dar inveja; elas tinha um “quê”, que não se pode explicar, um jeito de mexer no cabelo, um sorriso meio torto, um defeitinho que as aproximavam mais de nós, meros mortais, e causavam uma empatia impossível de controlar.

E percebeu também que essas pessoas exercitavam a simpatia onde quer que fossem, eram cordiais, amigas, solícitas, faziam todos que estavam ao seu redor sentirem-se bem, porque levavam a vida de um jeito tão leve que parecia que as coisas eram mesmo simples. Decidiu que, assim como aqueles que admirava, ia sorrir para o porteiro, cumprimentar efusivamente o caixa do supermercado, a moça que varria as calçadas, e não ia ignorar, nunca mais, as pessoas que pediam dinheiro. Decidiu deixar de ser invisível tornando os outros visíveis, disseminando aquilo que tanto buscava nos bares, nas baladas, no trabalho ou na faculdade: um pouquinho de amor.

Ana percebeu que para encontrarmos alguém que nos ame de verdade precisamos ser pessoas amáveis, encantadoras, que não tem raiva da vida, dos quilos a mais ou das dívidas no final do mês. Que não morrem de pena de si mesmo e sempre se sentem sós. A solidão, no final das contas, é algo que a gente faz. É o resultado de tanta amargura que destrói toda e qualquer possibilidade de aproximação humana.

Não adianta, aliás, descontar nos amigos, no vizinho ou nos pais a nossa própria insatisfação, o contentamento de nada tem a ver com condições positivas na vida; é um estado de espírito. É você optar por não se aborrecer, não desistir, olhar o copo inteiramente cheio se não sempre, na maior parte das vezes.

A sedução não precisa ser sexual. A sedução é aquilo que atrai bons amigos, empregos, que faz sabermos que quando o chuveiro queimar podemos ligar para o porteiro, quando tivermos que viajar, o vizinho hospeda o gato, quando gastarmos sem querer os trocados no ônibus, podemos levar o pão fiado, sermos salvos pelo mendigo do batedor de carteira, termos a porta de casa pintada com a tinta que sobrou da reforma do prédio e, tudo isso, porque os outros sabem que bem no fundo, aliás, no RASO, faríamos o mesmo por elas.

O amor é aquilo que quanto mais se dá, mais se tem. E todo mundo está cansado de saber disso.

 

 

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2 Comments

  1. Adorei!
    É isso q a gente tem mesmo q buscar na vida, tenho buscado isso mto em mim e nos outros. Tô há quase 3 anos sozinha, mas estou tão de bem com a vida q não faz falta, sabe? Acho q a gente tem q primeiro saber conviver com nós mesmos e gostar da pessoa q somos.
    E a sedução tá nisso, aquele velho ditado de q temos q primeiro nos gostar pra q os outros gostem, é uma bela verdade.
    Bjos e adorei sua visitinha no M! Seja sempre bem vinda, mesmo q não comente, só de saber q vc esteve lá, fico feliz!

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