laços.


Todos os dias, lá pras 5 da tarde, eu costumava pegar elevador com um senhorzinho bem senhorzinho mesmo, o Seu João. Sempre muito simpático, já corcundinha, com aquela voz que todo o velhinho tem, ele me contava sobre os 5 filhos, os quase 13 netos e do quanto lhe sobrava amor pela vida. O Seu João, que morava no 9º, às vezes vinha comigo até o 13º só  porque tinha uma necessidade de conversar, e eu, de escutar aqueles micro e repetitivos causos que ele contava (porque eu sei que no fundo, seremos todos como ele um dia.)

Hoje de manhã entrei no elevador e há algumas semanas eu estava sentindo falta do Seu João. Olhei os recados da água (que vai faltar), dos condomínios (que estão com muito atraso) e um bilhetinho, rosa, escrito à mão, por alguém que tinha poucas palavras a dizer. Hoje, vão realizar a missa pela morte do velhinho mais simpático que eu conheci na igreja da Consolação, às 19hs, e eu acho que não vou ter coragem de ir.

Não pela morte, pelo caixão ou pelas velas, não tenho paura de nada disso. Acho que é pela facilidade que os laços se fazem e desfazem nas nossas vidas e do quanto nos apegamos sem mesmo conhecer direito as pessoas. Nunca soube que o Seu João era doente, não sabia nem que ele estava hospitalizado, mas isso nunca importou. As poucas palavras que trocamos com algumas pessoas na vida são o suficiente para nutrirmos por elas uma relação, às vezes, inexplicável. Com vocês também é assim? Sou capaz de contar a minha vida inteira num ponto de ônibus.

A caixa do supermercado que me atende todos os dias, o dono da padaria que sempre faz piada quando eu compro meu Toddynho de manhã, a minha ex-chefe que me irritava por tanto tempo e hoje eu sinto falta… É incrível como a nossa memória é capaz de guardar partes tão boas de pessoas tão efêmeras e se apegar a isso, como se elas fossem primordiais na vida da gente.

Não sei quanto à minha participação na vida dessas mesmas pessoas, mas que o Seu João vai me deixar um buraco danado quando baterem os sinos das 5, com certeza vai.

E que fique em paz onde quer que esteja.

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6 Comments

  1. Que belas, palavras, muitos poderiam pensar como você, às vezes, na correria do dia-a-dia não damos tamanha importância para as coisas pequenas da vida.
    Sinto muito pelo senhorzinho, mas, fazer o que, a única certeza que temos da vida é a morte…

  2. Até chorei, seja pelo o que vem e o que vai…a vida sempre dá o tom pra gente…e tem tanta coisa e tantas pessoas que podemos aproveitar e nos tornarmos melhores ou piores…quem sabe…é de cada um..mas tem coisas que nos deixam uma saudade danada…lindo texto o seu!! Beijoo

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