sonhos, expectativas e realidade.

Eu acho que sonhar é algo inerente à vida humana, mas sou cética. Não acho que quem acredita sempre alcança, como fala a música do Legião Urbana, acho que precisamos estar sempre conectados com a realidade para conseguir traçar planos objetivos que nos façam atingir nossos sonhos, porque, em caso contrário, a fantasia nos consome. Acabamos por não viver o hoje porque estamos sempre presos no amanhã e nos conceitos que criamos sobre como gostaríamos que fosse nossa vida, nos afastando, obviamente, da vida real em si.

Conheço uma mulher que almeja coisas que não possui na esperança de ter outras que a supram. Ela não consegue enxergar, na realidade dela as coisas reais de fato e se aprisionou na ideia de que é uma dona de casa infeliz, sem diversão, escrava de um casamento que não correspondeu aos seus sonhos da juventude. Essa mulher ainda se vê com 25 anos, buscando todos esses sonhos e ainda não conseguiu perceber que o tempo passou,que  ela fez algumas escolhas erradas aqui e ali e que a vida não é mole assim, como a gente pensa. Pra ninguém.

Não é que ela seja vítima do mundo, infeliz e mal sucedida, com ela a coisa fluiu como fluiu pra todo mundo, mas ela estava tão preocupada em ser quem não era e parecer mil coisas para os outros que esqueceu-se de que, para concretizar as coisas, é preciso escolher um caminho e persistir ele e não esperar que tudo se resolva como na novela das 21h00. Hoje essa mulher não se posiciona e não enxerga suas próprias conquistas, amadureceu fisicamente, mas não emocionalmente. Tem crises de ciúme adolescente, surtos emocionais de carência e toma atitudes estúpidas, que afastam as pessoas, numa busca desenfreada de atenção. Ela não é má pessoa, apenas sofre com uma construção de vida da qual não consegue se libertar e nem enxergar a realidade como ela é.

Infelizmente, e eu sei que demoramos a aceitar esse fato,  não podemos ter tudo sempre. Sonhos que não são práticos beiram à loucura e não nos direcionam a lugar algum. A gente precisa construir nossas aspirações a partir do solo que a gente tem e não querer voltar no tempo, ou desejar a vida do outro, ou uma realidade completamente distante da nossa. Eu acho que nunca é tarde para mudarmos de rumo, darmos a volta e fazermos outro caminho, mas esse conceito de que a vida é unicamente uma construção nossa precisa ser quebrado.

Existe sorte sim, acaso sim, e gente que cavou oportunidades de um jeito inesperado, nem tudo é só aquilo que desejamos, buscamos desenvolver e evoluir linearmente. Filho não segura casamento, ensino superior não garante emprego, bom emprego não garante felicidade e ter dinheiro ajuda, mas não é tudo. Precisamos saber lidar com os nossos fracassos, buscar um recomeço e, acima de tudo, sermos palpáveis e gentis com os nossos sonhos.

Pior que gente não realizada é gente que segue a filosofia Xuxa de que “tudo pode ser, basta acreditar.” Tudo pode ser. Basta planejar muito, trabalhar duro e sofrer bastante. Faz parte.

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Amor e Orgulho*

O orgulho e o amor próprio são coisas diferentes. E igualmente destrutivas quando ou ausentes ou em excesso em qualquer relacionamento.
Ama a si mesmo aquele que mesmo gostando verdadeiramente do outro, opta por não continuar um relacionamento nocivo. Aliás, ama tanto, que prefere guardar apenas a parte boa do que foi vivido, sem ocasionar ainda mais mágoas que àquelas que o coração foi capaz de absorver.

Tem paixão por si aquele que abre mão de ser violentado moralmente, intelectualmente ou, até mesmo, fisicamente. Tem autoestima aquele que não se deixa levar pelas revistas, pelos padrões e que possui personalidade forte o suficiente para separar crítica de ofensa, bom de ruim, e mais que isso: tem força para recomeçar. Isso não é, de longe, ser orgulhoso; é ser sensato. Orgulho é não admitir erros, não aceitar elogios. É ter aquela necessidade de estar sempre sob o controle de tudo, de não ceder aos pequenos e breves prazeres da vida por se julgar superior a isso. É não ligar, não explicar, não pedir, não sentir.

É orgulhoso aquele que não dá o primeiro passo, que não pede desculpas, não sabe o significado de uma nova chance. E o orgulhoso não se afeta com situações grandes, preocupantes, é tudo bem pequenininho, bem simples, coisa de birra mesmo.

O orgulhoso prefere ter razão que ser feliz.

Briga e dorme sem querer reatar, mesmo sabendo que aquilo dentro do peito vai corroer, vai minar o que há de bom. E, às vezes, até se dá conta disso, mas não sabe como se livrar. O orgulho é feio. É o disfarce da alma cansada, que já apanhou demais por aí e que agora não quer mais saber: vai se proteger de todas as formas para não correr o risco de ser feliz.
Viver dói, pessoal.
E é melhor que seja sem arrependimentos por nossas próprias atitudes.
*texto originalmente publicado no Blog Lumagga
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murro em ponta de faca.

Qual é o seu limite?

Quantas noites você precisa ficar acordado, com gastrite, queda de cabelo e alergia pra entender que é  hora de parar? De desacelerar, de mudar o rumo para o qual as coisas estão indo? Qual é a linha tênue entre a desistência e o valor de si próprio? Quanto de caos é necessário para que você abra mão, deixe pra lá, abstraia?

Meus limites foram mudando gradativamente e muito tem a ver com a minha satisfação. Aliás, a satisfação é algo que move grande parte da minha vida – eu simplesmente não consigo, e também acho que não devo, me obrigar a coisas que não me fazem feliz. Porém, conforme vamos ficando adultos e percebemos a gravidade que é sermos donos do nosso destino (e das contas que não cansam de chegar pra pagar) mais toleramos as pequenas infelicidades cotidianas: o transporte lotado, a falta de educação daquele cliente, o cansaço que nunca cura. Acho que nos perdemos um pouco entre as obrigações, deixando completamente elástica nossa tolerância. Nos tornamos resilientes, fortes, polidos, mas infinitamente mais amargos. Vamos engolindo as críticas, as opiniões, vamos engolindo um pouquinho de nós mesmos, todos os dias. E nunca pára.

É preciso saber a diferença, a sutil diferença entre desistir e se valorizar. Entre a preguiça de continuar, de seguir em frente e aquele momento em que não há mais para onde nadar, não há mais o que ser feito para consertar essa ou aquela situação. Essa dica vale pra vida pessoal, para a briga de família, para o relacionamento abusivo ou para o mundo corporativo. Esteja atento aos seus sinais, pare de tantas cobranças.

Nem sempre o melhor caminho é seguindo em frente.

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da arte de não se importar.

Nunca me preocupei com as (más) interpretações do amor.

Sempre chamei pra sair quem eu queria e disse o que tinha vontade. Nunca me importei em ser tida como louca, carente, apegada ou desesperada. Nunca me preocupei também se seria julgada como vagabunda, piranha, galinha, “dada”, aliás, acho que todos nós podemos ser o que quisermos, quando quisermos e com quem quisermos. Que preguiça tenho de gente que acha que todo o ser humano é uma coisa só, que cabe numa caixinha de definições e previsibilidades entediantes. Se você ainda não errou, vai errar. Se você ainda não teve vontade, vai ter. Se não esteve no lugar que mais julga errado, complicado ou imoral, vai estar. E que pena se você nunca viver um desses papéis. Vai perder um bocado.

Não vim para essa vida à passeio, definitivamente. Se cheguei, se amei, se estou aqui, que seja para dar a cara à tapa. Se o outro se incomodar com essa ou aquela atitude, com essa ou aquela opinião, palavrão, ou resposta ácida, já não me serve. Às vezes, nem para ser amigo. Em pouquíssimos casos minhas atitudes se reverteram em algo desagradável ou desastroso, não sei, na verdade. Meu processo de seleção de pessoas para conviver é bruto, direto, não deixa nada sem pingos nos is.

Acho que alguns seres humanos talvez não estejam preparadas para o sincericídio, não foram treinados para lidar com ele. Viver é coisa forte, cara. Quando você se deparar com a intensidade das relações (e sentimentos, e palavras, e atitudes), e um dia vai ter que lidar com isso, não pode ficar apático. Ou se é, ou não se é. Ou está, ou não está. Quando somos impulsivos, podemos perder muito. Ou fascinarmos quem merece, tornando todo o processo de encantamento e paixão muito mais divertido – e recíproco – ainda que lá pra frente (e quem se importa com lá pra frente?) não dê em nada.

A sedução é direta. Ao menos pra mim, sempre foi.
As conquistas pedem ousadia, pedem um pouco de medo, pedem fôlego.

Se não é para provocar nada no outro, nem comece. Não vai valer a pena. Pode confiar em mim.

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(às vezes) é melhor não ter consciência.

Você até pode dizer que não, mas sabe que é verdade: todo mundo se importa com o que o outro pode pensar. Em menor ou maior nível, os julgamentos atrapalham a nossa vida de alguma forma e é impossível, no trabalho, na família, na rua, na chuva ou na fazenda, viver da forma como a gente quer sem pensar em absolutamente nada. É fato.

Mas mais importante que aquilo que os outros pensam sobre a gente é o que pensamos sobre nós mesmos. E aqueles momentos nos quais somos confrontados em relação às nossas atitudes pela consciência, entre ser feliz ou ter razão. Porque, convenhamos, às vezes ser feliz é fazer uma coisa que foge dos nossos princípios. Ser feliz exige que sejamos canalhas, egoístas. Ser feliz, às vezes, pede que esqueçamos as dores e as cicatrizes de um passado recente e nos joguemos puramente no desconhecido. Ser feliz às vezes pode parecer burro e inconsequente, mas ninguém quer ser infeliz. Ninguém quer saber que pode ter o melhor de alguma determinada situação ou fase e se ver impedido, por si próprio, a não seguir adiante.

Nossos conflitos internos são muitos. São bizarros. Acontecem o tempo todo. Não quero aqui incentivar ninguém a agir de forma maluca, nem a ferir outras pessoas em prol da mera satisfação pessoal, principalmente se ela for momentânea. Mas vale colocar em perspectiva o quão críticos somos em relação às nossas atitudes. O quão podemos flexibilizar nossa mente e coração para permitir – e por que não nos permitir às vezes? – a viver algo que parece imoral? Ilegal? Engordativo?

Uma das coisas mais incríveis dos seres humanos é a capacidade de conter instintos. E uma das coisas mais aprisionadoras, em contrapartida, é o nosso senso moral. De justiça. Nossa capacidade de nos limitar às inúmeras regras que sim, somos obrigados a seguir, para viver em harmonia com nós mesmos e com os demais membros da sociedade. Mas às vezes, só às vezes, fazer merda aduba a vida. E faz florescer coisas inimagináveis em terrenos inférteis.

Agir contra a consciência pode nos meter em muita confusão? Pode, claro. É preciso ter parcimônia e responsabilidade sobre tudo o que se faz. Só que a regra de que tudo em excesso faz mal, também se aplica nesse caso. A vida é implacável.

Mande aquela mensagem, fique com aquele cara. Supere essa perda, namore quem você ama. Perdoe. Perca a memória sobre algumas coisas, passe um pano nas boas lembranças, recorde, reviva, reaja.

Vai fazer bem.

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dos conselhos alheios.


Nada me irrita mais do que gente que quer dar opinião sobre o relacionamento alheio. Nada.

Entendo que quando estamos tristes, precisamos desabafar, conversar com aqueles que confiamos e pedir um overview sobre nossas dores e desgraças pessoais, faz parte, mas até mesmo nesse hora (inclusive nessa hora), precisamos selecionar bem quem pode acrescentar – e ajudar de fato a chegarmos a uma conclusão – ou quem só quer ver onde é que a coisa vai chegar. Esse segundo tipinho, costuma destilar meia dúzia de abobrinhas, aumentando bem a altura da fogueira, as ansiedades do seu coração e óh,  em termos bem reais, acaba ca-gan-do o seu rolê.

Entendo, inclusive, que as pessoas não façam isso por mal. Elas amam você. Elas querem que você fique bem, fique feliz, saudável, que sua vida entre nos eixos. Só que tem coisas que a gente pode até achar sobre a vida do outro, mas não pode sair por aí julgando. Que me desculpem os santos e santas desse Brasil, mas aquele que nunca fez um CAGADONA com alguém que ama não merece nem se manifestar sobre a minha vida, honestly. E não, não vai ter o mínimo de sensibilidade para se colocar no meu lugar, no lugar do outro, pra analisar friamente seja lá que diabos o que alguém (ou você mesmo) fez.

Fica a dica.

Não é porque você foi louca e surtada por um motivo babaca que não seja uma pessoa legal. Não é porque cometeu um erro que nada mais pode dar certo. Eu e você podemos até já ter nos sentido assim alguns dias, algumas vezes, mas não é real. Por essas e outras que eu também nunca, JAMAIS, conto qualquer briga sinistra com o namorado ou amigas(os) pra minha família, ou pra quem já tem propensão a ser uma pessoa odiadora. Como eu fico depois que a poeira baixar? Quando eu racionalizar meus sentimentos e quiser manter meu relacionamento seja lá qual for? Como fazer quando, no íntimo, a gente sabe que quer ficar, que precisa dar outras 45 chances, que sejam, e já proferiu pelos quatro cantos desse planeta nosso ódio e rancor por quem talvez não merecesse tanto assim?

Num conflito eterno, né? Pois é, rapaz.

Quando escrevo aqui, falo sobre sim. Sobre o que eu já vivi, senti, sobre como eu penso que as coisas sejam. Não estou aqui para cagar regras, para dizer como você deve agir se foi traído, se foi enganado, se sofreu ou se foi quem fez as piores atrocidades com a pessoa que amava. Aliás, ninguém pode dizer nada, querido, depende de você. E do que você sente e já viveu. E da avaliação que você precisa fazer friamente sobre si, sobre o outro e sobre quem é quando está em um relacionamento.

Não existem culpados e inocentes. Não existe ação sem reação. Mas acho, de coração e peito aberto, que recomeços são bem vindos e que podem (muito mais que fins), serem providenciais ao longo da vida.

Pense sobre isso.

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Ousadia.*

E daí se você conheceu o sujeito ontem no bar? E se você ligar? E se você não ligar? Será mesmo que vale a pena se envolver? Por que não valeria, aliás?

É bom viver com urgência. Se jogando nos projetos malucos, dando uma chance para o que não se pode, afinal, controlar. Não dá pra saber o que se passa na cabeça do outro, portanto, não há caminho certo. Não existe plano perfeito, estratégia que seja 100% eficaz. É simples.

Sempre existirão, pelo menos, duas opções – e mais outras tantas entre o sim e o não. Por que, então, insistir em controlar os efeitos daquilo que fazemos? Veja bem, não estou defendendo a impulsividade e a inconsequência, mas por que não dizer um “eu topo”? Porque não assumir? Porque não correr atrás? Por que essa blindagem toda, esse medo de perder, de colocar os pés pelas mãos?
Não temos como saber, afinal, se o nosso errado daria certo.

Se o nosso certo acaba meio errado no final. Não dá.

Aquele sujeito que deixamos de encontrar, o amigo que não demos uma chance, a palavra que não foi dita – nada, nada disso – volta. E se queremos tanto que algumas coisas, pessoas, momentos e afins se eternizem, ou, pelo menos, fiquem só mais 5 minutinhos, por que não tentar? Por que não saborear as coisas e seus efeitos, digeri-las, superá-las e correr o risco de sermos mais felizes que infelizes? Não entendo, aliás, porque sempre nos protegemos de uma possível infelicidade. Podemos ser, também, muito contentes em nossas escolhas, sabia?

Mesmo que elas sejam malucas, ousadas, fora do padrão, exóticas (mas muito melhores que aquilo que tentamos planejar e controlar).
Não temos controle. Nenhum ou muito, muito pouco.

E se é assim, que, pelo menos, a gente peque por tentar.

 

*Texto originalmente publicado e produzido por mim para o Lumagga.

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honestidade extrapolada.

Querida,

Gostaria de dizer que sinto muito a sua falta e sei que muitas outras pessoas – que te conheceram verdadeiramente – também sentem. Entretanto, precisava te falar algumas coisas que, tenho certeza, ninguém jamais terá coragem de dizer.  Sabemos que você é geniosa, cheia de orgulho e difícil de lidar. Sabemos que você é frágil mesmo se fazendo de forte. E sim, você vai berrar. Você vai retrucar. Você vai se vitimizar ainda mais e se sentir a mais injustiçada dos seres humanos viventes, mas gostaria que você tivesse a certeza, a mais plena de todas, que só dizemos certas coisas na cara de quem a gente ama de verdade. Porque quem não tem a menor importância a gente quer mais é que se f**a no lodo e fique por lá. Triste, mas real. Cruel, mas completamente válido. E é bem nesse clima que quero que você encare essa carta: de peito aberto e olhos e ouvidos bem atentos. Porque preciso que você comece a pensar diferente.

Felicidade não pode ser mensurada em feitos. Você não encontrará a alegria verdadeira em um salário no final do mês, você não encontrará o puro contentamento no reconhecimento profissional e, não, você não encontrará a tal felicidade nem em uma super viagem internacional cheia de compras bacanas e boas fotos pro Instagram. Felicidade é algo que está dentro de você, que depende única e exclusivamente da forma como você encara as coisas (boas e más) que se apresentam – e não da forma que elas, de fato, são (ou que você enxerga que elas sejam). Não é o mundo que conspira contra você, você não é tão importante assim para culpá-lo por tudo o que acontece de errado. É você quem traz, quem faz, quem acontece, quem permite, quem aceita e quem desfaz todas as coisas que te acometem – ou opta por deixá-las do jeitinho que se apresentam. Todas mesmo. Mesmo quando falamos de fatalidades.

Acontece com você, com o seu chefe, com a dona do mini mercado na esquina, com o caixa da padoca e até com o Abílio Diniz e com o Brad Pitt – todo mundo tem dias de merda até mesmo em vidas que não parecem de merda como você diz que a sua é.

Outra coisa importante é que quanto mais nos sentimos bem, desejamos e fazemos o bem e pensamos positivamente, mais coisas boas a gente atrai, como num ciclo. É cafona, é clichê, é auto ajuda barata, mas é verdade, pode reparar. E o contrário também se aplica. Ninguém gosta de saborear as amarguras alheias, ninguém gosta de tomar patada o tempo todo ou de ser mais um vilão que o destino colocou na vida pra ~ maltratar~ – quando você só reclama e maldiz é isso que quem está ao seu redor enxerga: uma grande nuvem cinza de coisa ruim prestes a chover na cabeça de quem quiser opinar.

A vida não dá errado porque você é gorda, feia, chata ou incompetente e você não é nada disso. Seus problemas familiares não precisam necessariamente ter a ver com seus relacionamentos mal sucedidos do passado (ou futuro), nem com a sua carreira indo por água abaixo; você precisa, urgentemente, trabalhar isso em você e parar de acreditar que tem sorte para o azar. As coisas não acontecem em um combo de merda pra que você chegue no fundo do poço, apenas levante-se, se limpe com um lencinho umedecido e saia de lá. Pegue uma escada, escale as paredes, peça pra te jogarem uma corda, mas sacuda a poeira do buraco e lute. Porque é pra isso que a gente acorda todos os dias; pra mais uma chance.

Destino não existe. A gente é quem faz das coisas ruins e boas pontes para outras situações, que também podem ser boas ou ruins, não sei, mas permita-se o acaso. Isso basta para se ter esperança.

Deixe que as pessoas se aproximem. Deixe que te ajudem. Aceite elogios, aceite que, é sim, boa em muitas coisas, acredite nisso e haja em coerência dessa fé em si mesma. Se você já começar a lutar derrotada, vai perder mais um braço. E as pernas. E a cabeça. Até ficar sem nada além do coração – cheio de dor e sozinho porque você mesma quis que assim fosse.

Desculpe-me se as palavras foram duras, mas foram honestas. E por favor, bola pra frente.

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as desamarrações do amor.

Confesso que tenho uma imensa curiosidade em saber como funciona esse lance de trazer o amor de volta em sete dias (ou em três horas). Deve mesmo existir por aí um sem número de pessoas que, na hora do desespero, apela até pros deuses celtas, pros búzios e pro tarô, mergulha o Santo Antônio no leite morno, toma xixi, faz banho de arruda e dá início à reza mais forte que conseguir encontrar.

Uma pena que em vão.

Pode me chamar de cética, de descrente. Pode me chamar de mulher de pequena fé, mas além da morte e da vida, o amor é uma das coisas que menos temos o poder de controlar. Se perdemos tempo, se pisamos na bola, se negligenciarmos as coisas – ou fizermos tudo como manda o figurino – ainda assim, estamos sujeitos ao acaso. Ao acaso das desamarrações do amor.

Maior que o medo de perder um grande amor, sinceramente, é o de tentar prendê-lo a qualquer custo. Alguns nós, às vezes, são tão apertados que machucam. Melhor deixar a coisa desatar, se assim tiver que ser, que insistir pra que ela permaneça ali, sem opções de ir embora.

Sei também que é fácil falar assim, quando se está na zona de conforto. Não perdi meu grande amor, muito pelo contrário, ele está bem aqui, dentro do peito, quentinho, do outro lado da cama, onde deve mesmo estar. Quem sou eu, então, pra julgar àqueles que já não quiseram profundamente que as coisas voltassem a ter o sabor do começo, não é mesmo? Pensando no âmbito psicológico da coisa, creio que o esforço para retomar aquilo que um dia tivemos é uma das partes cruciais do desapego.

Sim, somos mesmo contraditórios pra dedéu.

Dos superpoderes que gostaria de ter, não queria, afinal, esse de amarrar os sentimentos alheios. Talvez o de voltar no tempo, talvez o de ser invisível, talvez o de apagar algumas memórias ruins – não sei, esses me parecem bons. E você, amante desesperado, apelão de mandingas, deveria começar a pensar assim.

Só se insiste nessa coisa de querer a todo custo o que já há muito se perdeu quem não consegue se moldar e conviver com o que muda, com o que vai e pode ser ainda melhor.

E estar vivo, meus jovens leitores, é mudar todos os dias. Mesmo que no começo (e talvez no meio), doa.

Desamarrar é mesmo difícil, mas depois alivia.

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coitadinhos.

Dentre as coisas que devemos desejar para àqueles que queremos bem, há uma que eu espero, de todo o coração, que você nunca tenha que lidar: o fardo de conviver com alguém que reclama demais.

Aquela pessoa que se sente dia sim, dia também, uma coitada. Se diz vítima de todos os males, de dor na perna,  no bolso e no coração – que é partido, sem fim, todos os dias,  desde que nasceu – e que sofre,  se revira e desvira no sabor amargo da própria dor. Que vive, e já se estabeleceu por ali, na miséria do amor, da amizade ou de uma família bacana. Que o trabalho é uma merda, que a vida pessoal é uma merda, que os finais de semana, os dias de sol ou de chuva, o celular, a comida por quilo ou os sapatos que escolheu para usar no dia de hoje, óh, tudo é uma merda. Até as férias são uma merda, veja só que coisa mais triste.

E ninguém pode se dizer mais infeliz que o tal ser humano, nunca, jamais. Os sofredores crônicos  já se colocaram no top top da escala de vida desgraçada, e ai de você se aparecer com um probleminha. Ai de você se acordar num mal dia ou levar um ocasional pé na bunda, pode engolir esse choro aí: você não sabe nada, nem nunca vai saber, do que é dor de verdade, ok? E tenho dito.

Os sofredores convictos vivem num ciclo continuo de azar. Aliás, nunca reconheceram que possa existir sorte, essa coisa fictícia que acontece com todo mundo menos com eles. Sorte é pra quem já nasceu rico, bonito e sem conta nenhuma pra pagar. Sorte é coisa que Deus distribuiu só na área VIP do céu, aquela que obviamente, uma pessoa tão infeliz como essa, passou longe.

E esse tipo de gente, infelizmente, existe aos montes. Está se multiplicando feito praga, mais que calça beetlejuice, mais que virose de  praia pós carnaval. Uma tristeza.

Veja bem, se não tivéssemos aí, uns bons problemas pra resolver, não nos motivaríamos a nada. Se a vida fosse ganha, nosso estímulo seria inexistente. Viveríamos como zumbis, apáticos. Nesse ponto, conviver com um sofredor é uma lição diária de que nada é tão ruim assim que a gente mesmo não possa piorar. A felicidade mais tem a ver com o modo que lidamos com os nossos problemas do que pela existência ou não deles. Eu, ao menos, faço parte de uma categoria que gostaria, caro leitor, que você também fizesse parte: os felizes opcionais. Aqueles que assim como eu e você não vive sempre os dias mais maravilhosos do planeta terra, mas que vai dormir acreditando que pode sim – e sempre – ser um pouquinho melhor.

Anda se lamentando que a vida não está tão bacana? Mude.

Certamente, dia desses aí, você vai esbarrar em um sofredor desses convictos, lembrar de mim e perceber que o mundo é bão, Sebastião. A gente é que só reforça o que doeu.

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